CAPA
VEJA
www.veja.com
editora ABRIL
Edio 2343  ano 46  n 42
16 de outubro de 2013

[descrio da imagem: foto de MALALA, menina paquistanesa.  Tem um manto que lhe cobre a cabea, de cor rosa forte. Est de frente, o rosto no est coberto.]
MALALA
A MENINA SEM MEDO
Baleada na cabea pelos radicais islmicos por querer estudas, ela se tornou smbolo mundial da luta pela liberdade e pelos direitos da mulher.

[descrio da imagem: no canto superior da esquerda, imagem de dois policiais, com vestimentas de polcia de choque. Aparecem dos ombros para cima e esto de perfil]
VANDALISMO
Como as polcias das grandes democracias reprimem baderneiros mas garantem as manifestaes.

MENSALO
PF rastreia as contas no exterior que irrigaram a campanha do PT em 2002

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# INTERNACIONAL
5# GERAL
6# GUIA
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  O LEGTIMO USO DA FORA
        1#3 ENTREVISTA  SRGIO LAZZARINI  A VOLTA DO ESTADO LEVIAT
        1#4 CLAUDIO DE MOURA CASTRO  UMA REVOLUO NO ENSINO. OUTRA?
        1#5 MALSON DA NBREGA  A MALDIO DO PETLEO E A EDUCAO
        1#6 LEITOR
        1#7 BLOGOSFERA
        1#8 EINSTEIN SADE  PROBLEMAS NA COLUNA?

1#1 VEJA.COM
MESMO CORPO, VRIOS GENOMAS
At recentemente, a cincia estava certa de que todas as clulas do corpo de uma pessoa saudvel possuam o mesmo genoma. Mutaes seriam algo excepcional e resultariam 
quase que invariavelmente em doenas. Essa certeza foi abalada. Novas anlises demonstram que as clulas de um mesmo indivduo podem sofrer mutaes espontneas 
durante seu desenvolvimento. O resultado  um corpo formado por tecidos de mesma origem, mas com DNAs diferentes. E esse fenmeno, em vez de raro, seria comum. Reportagem 
no site de VEJA mostra quais so as implicaes dessa descoberta em reas que vo da medicina forense  produo de remdios personalizados. 

FUTEBOL E POLTICA
Depois de comandar a seleo americana de futebol na Copa do Mundo da frica do Sul, em 2010, Bob Bradley assumiu o desafio de tentar classificar a seleo do Egito 
para a Copa do Mundo de 2014. No caminho at o Mundial, no entanto, ele tem de passar muito mais do que orientaes tticas aos jogadores. Em entrevista ao site 
de VEJA, Bradley explica como a turbulncia poltica no Egito exige que ele v alm do papel de treinador e tente, por exemplo, fazer do futebol um ponto de unio 
no pas. 

PAQUERA PERFEITA
H um cupido digital em ascenso. O aplicativo Tinder ganhou mercado reunindo os pontos fortes de servios rivais. Permite encontrar um novo amor cruzando dados 
do Facebook ou de programas de geolocalizao, entre outras possibilidades. Os usurios acessam o servio, em mdia, onze vezes por dia; a cada ms, avaliam 3 bilhes 
de parceiros potenciais. Os brasileiros j invadiram o ambiente: aqui, a plataforma cresce em ritmo bem superior ao do mercado americano, onde ela nasceu. 

APRENDENDO A PRIVATIZAR
As concesses de obras de infraestrutura j comearam. Diante dos problemas detectados no leilo de rodovias, o governo busca maneiras de melhorar a base dos projetos 
para atrair investidores. O site de VEJA conversou com economistas e especialistas do setor, que levantaram os pontos mais crticos dos planos de privatizao de 
portos, aeroportos, rodovias e ferrovias e sugeriram solues viveis para que os leiles sejam bem-sucedidos. 

1#2 CARTA AO LEITOR  O LEGTIMO USO DA FORA
     Uma reportagem desta edio de VEJA mostra como os baderneiros que se autointitulam black blocs prestam um desservio  democracia, ao alimentar a violncia 
gratuita e, por meio dela, destituir de razo os movimentos que, muitas vezes, defendem boas causas.  o caso das manifestaes de junho passado, que escancararam 
a abissal distncia dos polticos de Braslia do restante do Brasil, mas tiveram seus efeitos positivos minados pela ao de uma minoria de vndalos. Por esse mesmo 
raciocnio, s perdem legitimidade as reivindicaes do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educao do Rio de Janeiro, que, na semana passada, decidiu confundir 
seu movimento com os black blocs. Ora, estamos mal se os prprios representantes dos professores, em greve h dois meses, acham que a polcia no pode reprimir os 
vndalos, impedindo-os de incendiar carros, destruir lojas e aterrorizar as pessoas nas ruas. Ser que so mesmo educadores? No o so no sentido universal contido 
no ensinamento de 2500 anos do chins Confcio: "Se quer investir por um ano, plante arroz. Se quer investir por uma dcada, plante rvores. Se quer investir por 
um sculo, eduque as crianas". 
     A reportagem de VEJA faz uma profunda anlise desses fenmenos violentos, que, claro, no so particularidade do Brasil. O que parece ser tipicamente brasileiro, 
porm,  a falta de convencimento de que, desejveis e naturais nos sistemas democrticos, as manifestaes no podem paralisar as cidades nem destruir o patrimnio 
pblico. Mrio Sabino, correspondente de VEJA em Paris, ouviu as polcias da capital francesa e de Londres, que h muito mais tempo so confrontadas com o desafio 
de disciplinar com rigor manifestaes de rua sem, com isso, atentar contra o legtimo direito de expresso dos indivduos. Reprteres da redao de VEJA em So 
Paulo fizeram a mesma investigao junto s polcias de metrpoles no Canad e nos Estados Unidos. So departamentos de polcia de naes altamente civilizadas cujo 
compromisso com a democracia e os direitos humanos no pode ser posto em dvida. As democracias consolidadas tm em comum a poltica de usar o grau de fora necessrio 
para impedir que manifestaes degenerem em vandalismo. Ponto. 
     Em Paris, a cidade onde nasceu a Declarao dos Direitos Humanos, os lderes dos manifestantes tm de combinar com a polcia o trajeto e o tempo de durao 
do protesto.  proibido o uso de mscara que esconda o rosto. Museus, teatros, reparties pblicas, sedes de governo, ruas movimentadas, praas centrais so considerados 
zonas de excluso permanente e no podem servir de palco para manifestaes. O que acontece com os grupos que desobedecem s regras? So reprimidos. Ao contrrio 
do que vem ocorrendo no Brasil, os policiais franceses, ingleses ou americanos no so criminalizados pelo uso da fora contra vndalos. Eles so valorizados por 
cumprir sua misso. Em Paris, os oficiais so autorizados at mesmo a utilizar balas de verdade se forem atacados com armas de fogo. Em Londres, eles podem requisitar 
blindados do Exrcito. Exagero? No quando o que est em jogo  a defesa da democracia contra o terror imposto por minorias violentas. 


1#3 ENTREVISTA  SRGIO LAZZARINI  A VOLTA DO ESTADO LEVIAT
O professor do Insper diz que o aumento do intervencionismo do governo na economia emula os mesmos princpios da ditadura e abre espao para ainda mais corrupo.
DUDA TEIXEIRA

     Diretor de pesquisas do Insper, escola de economia e negcios em So Paulo, Srgio Lazzarini  especialista nas interconexes  escancaradas e veladas  que 
existem entre as empresas e o Estado brasileiro. No livro Capitalismo de Laos, publicado em 2010, ele revelou a influncia do setor pblico na economia nacional, 
inclusive nas empresas que foram privatizadas na dcada de 90 e deveriam estar a salvo do jugo governamental. No incio do prximo ano, Lazzarini publicar A Reinveno 
do Capitalismo de Estado: a Evoluo do Leviat. Em coautoria com o mexicano Aldo Musacchio, professor da Escola de Negcios da universidade americana Harvard, o 
livro ser lanado primeiramente em ingls. Lazzarini  Ph.D. em administrao e tem 42 anos. 

O intervencionismo estatal est aumentando no Brasil? 
Sem dvida. H um retorno ao que eu chamo de "Leviat majoritrio" (o filsofo ingls Thomas Hobbes definiu o Estado como um monstro, o Leviat, com poder absoluto 
sobre os indivduos). Foi esse o modelo que preponderou durante a ditadura militar. Naquele tempo, o governo era o dono de vrias empresas, estatais, que dominavam 
uma fatia muito grande da economia. Petrobras, Eletrobras e Telebras so os exemplos mais notveis. Com as privatizaes na dcada de 90, passou-se ao estgio do 
"Leviat minoritrio". O governo continuou presente nas empresas, mas com um poder menor. Isso aconteceu principalmente por meio dos fundos de penso e do Banco 
Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social (BNDES), que viraram grandes acionistas. No segundo mandato do presidente Lula, a tendncia de encolhimento do Estado 
foi revertida. O BNDES passou a conceder financiamentos a juros camaradas para realizar fuses entre grandes empresas. A ideia bsica era sacrificar a competio 
no mercado nacional, que ficou fortemente concentrado, forjar "campees nacionais" e lanar produtos no exterior, o que raramente aconteceu. Foi o caso da Oi que 
surgiu aps a compra da Brasil Telecom, e da BRF, com a aquisio da Sadia pela Perdigo. Com Dilma Rousseff, a intromisso estatal se acentuou. Ela decidiu-se pela 
interveno direta na Petrobras para conter o aumento no preo da gasolina. No setor bancrio, obrigou a Caixa Econmica Federal e o Banco do Brasil a cobrar juros 
mais baixos. No eltrico, pressionou as empresas a reduzir o valor das contas de luz, o que reforou o papel da Eletrobras, estatal. Dilma est levando o Brasil 
novamente em direo ao Leviat majoritrio. 

A Portugal Telecom fundiu-se no incio de outubro  Oi, uma "campe nacional" que contava com investimentos do BNDES. O que aconteceu? 
As aes caram muito e as dvidas cresceram. O negcio deu errado. O interessante  que o BNDES no disse ainda se est saindo da companhia, como mandam as boas 
prticas administrativas. A mensagem do banco estatal para as outras firmas em que investe  a de que no  preciso ser lucrativo para ter o seu apoio. Isso  muito 
ruim. 

De onde vem o ardor estatista da presidente Dilma Rousseff? 
Quando se olha para os princpios tcnicos, fica evidente que h muitas semelhanas entre o atual governo e os da ditadura, principalmente no perodo de Ernesto 
Geisel, quando o nmero de estatais aumentou consideravelmente e muito capital pblico foi direcionado a grupos privados. As empresas estrangeiras estavam presentes, 
mas a participao delas era mais bem-vista onde sabidamente faltava competncia local. A viso era a de que o desenvolvimento industrial deveria ter forte participao 
do Estado, com nfase na produo local. Em um de seus livros, o jornalista Elio Gaspari contou um caso muito interessante que se deu quando Geisel era presidente 
da Petrobras. O general cancelou a concesso de postos de gasolina da Shell argumentando que "'encher tanque de gasolina ns sabemos...". Na essncia, essa  a viso 
preponderante no governo atual. Se dependesse da vontade de Braslia, os novos aeroportos entregues  concesso privada ainda estariam sob o controle majoritrio 
da Infraero. Portanto, a meu ver, em termos de princpios econmicos, Dilma no  muito diferente dos militares. 

A interveno estatal na economia brasileira, porm, foi vital para evitar os impactos da crise mundial de 2008, no? 
Quando a crise financeira deu as caras, em 2008, o Brasil no foi muito atingido. O governo ento colocou ainda mais dinheiro nas empresas pblicas e privadas, principalmente 
em crditos do BNDES. Para os burocratas, o diagnstico  de que o socorro estatal salvou a economia da crise. Mas essa no foi a nica nem a mais forte razo. O 
Brasil resistiu porque a China continuou crescendo e importando nosso minrio de ferro e produtos agrcolas. 

Mas houve uma fase inicial em que a atuao do BNDES e do governo parecia fazer mais sentido, correto? 
Sim. No houve problema no primeiro momento porque o dinheiro pblico estava retornando aos cofres pblicos na forma de dividendos das estatais e do prprio BNDES. 
Agora, o mundo todo desacelerou. O capital que foi emprestado pelo governo a muitos empresrios no ser produtivo e haver problemas para recuperar os investimentos. 
H quatro anos, a imagem que existia do Brasil no exterior era a do Cristo Redentor decolando como um foguete, como mostrou a capa da revista inglesa The Economist. 
Isso  passado. A mesma revista fez uma capa recente em que o foguete Brasil est fora de controle. 

Os problemas estruturais brasileiros so sobejamente conhecidos e no precisamos dos ingleses para apont-los. A questo  se existe alguma chance de o Brasil resolv-los. 
Qual  a sua opinio? 
Com a equipe econmica atual no existe a menor chance. Ela obedece a um modelo mental rgido. No h nenhum integrante do atual time econmico em Braslia que pense 
de maneira diferente. Para todos eles, as solues dos problemas passam necessariamente pelo governo. Quando surge uma nova crise, a reao  sempre aumentar a presena 
do Estado na economia, quando a reao deveria ser em sentido contrrio. 

O Brasil est adquirindo a doena terminal da Argentina, pas que se tornou um pria no mercado mundial? 
Estamos caminhando nessa direo. O teste de fogo ser a inflao. Caso os preos continuem subindo sem parar, como muitos economistas esto prevendo, a reao do 
governo brasileiro pode ser ainda mais desastrosa. No duvido que o governo recorra aos mecanismos de controle de preos. Acho que a presidente Dilma tem uma coceirinha 
para fazer isso, mesmo que seja mais do que provado que esse tipo de medida nunca funcionou em nenhum lugar do mundo. Seria, repito, um desastre para o Brasil. 

O senhor acha que o governo entende as consequncias negativas de segurar artificialmente o preo da gasolina? 
Ao conter a elevao dos preos de maneira direta, o governo criou um enorme problema de caixa para a Petrobras. A estatal do petrleo poder ter dficits ainda 
maiores daqui para a frente. O governo deve saber que causou prejuzos enormes aos investidores minoritrios da Petrobras. Entre eles esto grandes investidores 
estrangeiros, mas tambm milhes de brasileiros que investiram parte do seu suado FGTS na Petrobras. Outro efeito tremendamente negativo de segurar o preo da gasolina 
e esvaziar o caixa da Petrobras  que vai faltar dinheiro para as novas exploraes do pr-sal. As intervenes estatais geram insegurana. Isso derruba o valor 
das companhias. No caso da Petrobras, melhor seria se o governo no tivesse feito nada para segurar o preo da gasolina. Agora o custo ser alto. 

A Agncia Nacional do Petrleo (ANP) est exigindo agora que a Petrobras invista para aumentar a produo, que est em queda. A empresa tem as condies necessrias 
para isso? 
No Brasil, h uma enorme confuso sobre o real papel das agncias reguladoras. As agncias no podem nem devem fazer algo assim, to diretamente. Isso s atrapalha. 

Estamos condenados no Brasil a ter a mo do Estado cada vez mais pesada?
A impresso que se tem ao conversar com empresrios  que isso  um fato da vida. Eles dizem que sempre apoiam um poltico.  por segurana. Querem ter certeza de 
que, quando vier uma mudana nas regras do jogo, eles, pelo menos, tero para quem ligar. Ou seja, eles sentem que esto sempre sujeitos a sofrer os efeitos de algum 
tipo de interveno. As grandes empresas apoiam mais de um partido durante a campanha eleitoral para garantir que, seja qual for o resultado das urnas, elas sempre 
tenham interlocuo em Braslia. 

H evidncias de que isso funciona? 
Ns comprovamos com pesquisas que as empresas que mais doaram a polticos vencedores de eleies so as que mais receberam recursos pblicos depois da posse do eleito. 
Em 2011, em um estudo que fiz em colaborao com pesquisadores de Harvard, da Fundao Getulio Vargas e da Universidade do Vale do Itaja, descobrimos a existncia 
de uma relao direta entre o apoio a um candidato bem-sucedido e a obteno de recompensas mais tarde. A pesquisa mostrou que, em mdia, uma grande empresa recebe 
28 milhes de dlares, em emprstimos ou outras formas de apoio, do BNDES, para cada deputado, governador, senador eleito com seu apoio. Esses nmeros so incontestveis. 
A relao  indiscutvel. 

As privatizaes dos anos 90 j no deveriam ter encolhido o Estado brasileiro? 
O tamanho foi reduzido, mas isso no significa que o governo perdeu msculos. Durante aquele processo, os grupos de oposio impediram que fosse feita uma privatizao 
verdadeira. Com raras excees, como a Inglaterra de Margaret Thatcher, as privatizaes no tiraram o Estado da economia de mercado. Na Europa, na Amrica Latina 
e na sia, as estatais esto entre as companhias mais comercializadas nas bolsas. Entre os Brics (Brasil, Rssia, ndia e China), os governos participam do capital 
de 30% a 50% do valor total das empresas no mercado. Nos Estados Unidos, esse ndice  prximo de zero. Na Inglaterra,  de 3,7%. No Chile, mais perto da gente, 
 de 1,3%. No Brasil, o prprio presidente Fernando Henrique, que comandou as maiores privatizaes, admitiu que no teria sido possvel pass-las totalmente para 
a gesto privada. Para viabilizar o processo, FHC admitiu nas empresas privatizadas a participao dos fundos de penso, que investem na aposentadoria dos funcionrios 
pblicos, e do BNDES. Como o governo se manteve firme nas antigas estatais e est presente em inmeras empresas privadas que dependem do BNDES,  tolo achar que 
os empresrios no Brasil possam tocar seu negcio sem um olho na poltica. Na atual situao,  mais crucial para eles fazer a ronda por Braslia do que, propriamente, 
cuidar da estratgia corporativa. 

Uma ex-estatal no deveria simplesmente se desligar do governo? 
Seria o mais lgico e eficiente. Mas no Brasil isso no acontece assim. Veja o caso da Vale, que foi privatizada em 1997. Mais de uma dcada depois, em 2009, a mineradora 
ainda estava submetida aos desejos do governo. O ento presidente Lula decidiu que a Vale deveria investir em siderurgia no Brasil. Do ponto de vista econmico, 
no fazia o menor sentido investir na produo de ao no pas. Havia uma enorme capacidade ociosa nesse setor. Lula tambm pressionou para a Vale comprar navios 
feitos no Brasil a um preo muito maior do que o do mercado internacional. O ento presidente da Vale, Roger Agnelli, em benefcio da sade da empresa, resistiu 
 presso e foi demitido. Sem um controlador privado majoritrio, a Vale, mesmo privatizada, continua refm dos fundos estatais de penso e do BNDES, que, por sua 
vez, obedecem ao presidente de Repblica. O Brasil criou esses monstrengos hbridos que so a cara do nosso capitalismo de laos. 


1#4 CLAUDIO DE MOURA CASTRO  UMA REVOLUO NO ENSINO. OUTRA?
     Na histria da educao no faltaram orculos anunciando alguma pica revoluo. A imprensa de Gutenberg foi a primeira. Embora tenha sido uma das poucas a 
causar abalo, no desempregou professores, como se temia. Com o correio, inaugura-se o ensino por correspondncia. Mas a escola continuou impvida. O cinema substituiria 
as escolas. No aconteceu. A televiso foi a profecia seguinte. Arranhou, mas no revolucionou. 
     Com clarins estridentes, foi anunciada a chegada do computador  escola. Os obesos mainframes viraram PCs; depois, notebooks, tablets e smartphones. Some-se 
a isso a internet, ligando tudo a todos. Veio a tal revoluo digital? 
     Por razes que a todos surpreendem, a maioria das escolas no digere os computadores. Antes, hostilmente os rejeitava. Agora, diz que os ama, mas no consegue 
us-los. Nos pases em que foram avaliados, como um todo, os programas de informtica na escola foram um desapontamento. Softwares criativos e fascinantes no aterrissam 
no aprendizado do currculo. Adoo em massa, s de mimegrafo, xerox e projetores  que, embora convenientes, nada inovam na pedagogia.  
     Fora da escola acadmica, os computadores do certo. A educao informal os utiliza bem e, em alguns casos, os utiliza muito. Pesquisas mostram mais aprendizado 
por parte de alunos com computadores em casa. Estudo recente do Positivo identificou um uso intenso das redes sociais entre os alunos, em fruns de discusso criados 
por eles e com mnima participao dos professores. Dito isso, quero ser o orculo de uma revoluo tecnolgica: hoje  possvel levar a qualquer brasileiro a melhor 
aula expositiva do mundo, a um custo que se aproxima de zero. Como assim? 
     Se o melhor dos melhores professores gravar uma aula, com o auxlio de todos os recursos audiovisuais, estdios e direo, essa aula ser melhor do que sua 
verso ao vivo, nua dos complementos da produo. Portanto, substituiria a exposio do professor, monotonamente repetida. 
     E, se ela for vista por muitas pessoas, o custo por aluno ser ridiculamente baixo. O Telecurso 2000  um belo exemplo, pois nenhum professor  capaz de dar 
uma aula to perfeita. A produo dos vdeos custou 30 milhes de dlares. Mas. como 6 milhes j se formaram, o custo por aluno  de 5 dlares apenas! Por aula, 
 um centavo.  ou no  uma revoluo? 
     Na esteira desse salto quntico na tecnologia, aparece uma multido de iniciativas. A Kahn Academy  das mais conhecidas. Coursera e outras entram em cena. 
oferecendo ensino de massa e gratuito. Como sou carapina amador, aprendo a trabalhar com vdeos dos melhores marceneiros do mundo.  um privilgio ao alcance de 
todos. 
     Esse avano nos leva a duas encruzilhadas. A primeira  saber se haver um casamento do EAD (ensino a distncia) de massa com o ensino acadmico e seus diplomas. 
Como fica um bilogo educado no computador e a custo zero? Superaulas de graa sem diploma ou aulas chatas com diploma? Nos Estados Unidos, comea-se a falar de 
educao na nuvem com diplomas oficiais. O ensino tradicional tem boas razes para tremer nas bases. A segunda nasce do fato de que uma aula expositiva  apenas 
um pedao de uma educao de qualidade. Como fica o resto, que envolve aplicao, prtica e depende da interao entre alunos e professores? H um sem-mmero de 
alternativas, presenciais ou a distncia. Em algumas, como o Telecurso, h um monitor na sala de aula. Mas existem cursos EAD em que uns poucos tutores atendem os 
alunos, via internet. E outros com muitos tutores. H verses em que a inteligncia artificial, instalada nos computadores, substitui a ateno pessoal do professor. 
Obviamente, os custos variam. H cursos EAD mais caros que seus correspondentes presenciais. E h cada vez mais cursos gratuitos. 
     Embora os cursos a distncia possam apresentar rendimentos equivalentes ou melhores, no somos capazes ainda de destrinchar os mritos da multiplicidade de 
alternativas existentes e a existir. S d para prever que o curso presencial puro est ameaado. 
     Mais outra revoluo que vai gorar? Ou um realinhamento nas formas de ensinar, trazendo terremotos  organizao do ensino? 


1#5 MALSON DA NBREGA  A MALDIO DO PETLEO E A EDUCAO
     Em recente e concorrida cerimnia, foi sancionada a lei que destina 75% dos royalties do petrleo para a educao e 25% para a sade. Do mesmo modo, sero aplicados 
50% do Fundo Social do pr-sal. A medida vai evitar, segundo a presidente Dilma, a "caracterstica terrvel" da "maldio do petrleo". Ela se empolgou. "Ns vamos 
assegurar, com esses recursos, um patamar de desenvolvimento bastante similar ao dos pases desenvolvidos." Ser? 
     A "maldio do petrleo" vem do artigo de Jeffrey Sachs e Andrew Warner ("Natural Resource Abundance and Economic Growth", 1995). Eles mostraram que pases 
ricos em recursos naturais crescem menos, pois essa fonte de riqueza tende a gerar desperdcios em meio a corrupo e a entraves burocrticos. Gastos correntes crescem 
em detrimento de aes na infraestrutura e no fortalecimento institucional. As polticas de desenvolvimento beneficiam grupos influentes.  
     Ao contrrio do que se pode pensar, o xito  possvel sem amplos recursos naturais. No sculo XVII, a Holanda eclipsou a Espanha, ento detentora de minas 
de ouro e prata no Novo Mundo. Entre os sculos XIX e XX, o Japo superou a Rssia rica de recursos naturais. Outro exemplo  o sucesso de Singapura, Taiwan, Hong 
Kong e Coreia do Sul. H casos que no confirmam a tese daqueles autores. Na Inglaterra, o carvo mineral contribuiu para a Revoluo Industrial. Os Estados Unidos 
enriqueceram ao tempo em que exportavam recursos naturais. No Mar do Norte, o petrleo no gerou desperdcios. 
 difcil partilhar das loas da presidente Dilma  nova lei. O problema da educao no  de falta de recursos, mas de boa gesto e de prioridades, como afirmei 
nesta coluna. Essa  tambm a opinio de outro colunista e um de nossos melhores estudiosos da matria, Gustavo Ioschpe. Cabe reconhecer, porm, que a maioria concorda 
com a empolgao de Dilma. Ademais,  amplo o apoio ao projeto de lei que elevaria tais gastos para 10% do PIB, mesmo que, proporcionalmente, seu nvel atual (5,8% 
do PIB) seja prximo do observado nos Estados Unidos e na Alemanha, e supere os do Japo, da China e da Coreia do Sul. 
     H quem busque provar que aplicamos pouco em educao mediante comparao dos nossos gastos por aluno com os dos pases ricos. De fato, o relatrio Education 
at a Glance 2013, da OCDE, indica que, somados os gastos pblicos e privados, os Estados Unidos investem 15.171 dlares por estudante; o Brasil, apenas 3067 dlares. 
A estaria, diz-se, a origem do fracasso brasileiro em educao. Por isso, remuneramos mal nossos professores e no investimos adequadamente em tecnologia. De fato, 
pouqussimas escolas do ensino fundamental possuem laboratrio de cincias. 
     Esse tipo de comparao  despropositado. No  possvel cotejar gastos pblicos de pases sem levar em conta as diferenas de renda per capita entre eles. 
O correto  fazer comparaes em termos proporcionais (percentuais do PIB). Os Estados Unidos despendem em educao 4,9 vezes mais do que o Brasil simplesmente porque 
so mais ricos. Segundo o World Economic Outlook, do FMI, em 2010 a renda per capita americana era de 46.811 dlares e a do Brasil de 10.992 dlares, ou seja, a 
deles  4,3 vezes a nossa. Por a, tambm ficamos prximo deles. O relatrio da OCDE mostra que os gastos americanos por estudante so 65% maiores do que a mdia 
da Unio Europeia, mas os dois grupos exibem qualidade de educao semelhante. O critrio quantitativo, como se v, nem sempre  o melhor para aferir o desempenho 
de distintas polticas pblicas. Ser ainda menos adequado quanto maior for a distncia entre as rendas per capita dos pases considerados. 
     Precisamos revolucionar a gesto das polticas educacionais. Por exemplo, remunerar os professores por desempenho e deixar de designar diretores de escolas 
por interesses polticos. Enquanto essas e outras mudanas no vierem, aumentar gastos pblicos pode ajudar, mas  provvel que gere mais desperdcios e no contribua 
para melhorar a qualidade da educao. Como ensinou Cristo, "ningum deita remendo de pano novo em roupa velha porque semelhante remendo rompe a roupa e faz-se maior 
a rotura" (Mateus 9:16).


1#6 LEITOR
CHOCOLATE
Sou nutricionista e achei excelente a reportagem  gostoso e faz bem" (9 de outubro), sobre os benefcios do chocolate. Para viver bem, nosso organismo quer um plano 
alimentar com substncias bioativas como as que vimos na composio dos alimentos da reportagem de VEJA. 
MARIA DE FTIMA NUNES DUARTE 
Natal, RN 

Ao ver a chamada "Chocolate  Pode comer sem culpa'' na capa de VEJA, editada sobre a imagem do alimento e com destaque para a frase "E ainda ajuda a manter o peso", 
pensei nas pessoas que, por diversos motivos, querem buscar informaes confiveis lendo superficialmente as manchetes nas bancas. Como as expresses ''ingesto 
moderada", "consumido com parcimnia" e "20 gramas por dia" s aparecem no meio da reportagem, conclu que a leitura aprofundada de VEJA, mais do que nunca, se tornou 
uma questo de sobrevivncia! 
LUCILIA DINIZ 
Empresria e escritora So Paulo, SP 

Com tanta guerra, corrupo, injustia, merecemos, sim, comer chocolate sem culpa! 
NEUZA GONALVES TRAVAGLIA 
Uberlndia, MG  

Para uma choclatra de planto, a deliciosa reportagem de VEJA  altamente esclarecedora e til. Comer chocolate, sem culpa! 
SULEYMAR ARCHIBALD 
Goinia, GO  

Brilhante e surpreendente a reportagem sobre o chocolate. 
MAGALI FERNANDES 
Natal, RN 

Como mdico e nutrlogo, acrescento que o chocolate  totalmente permitido se algumas orientaes forem seguidas. Opte pelo amargo, com a maior concentrao de cacau 
possvel, e ingira com moderao uma poro de chocolate (30 gramas) a cada trs dias (at 6,7 gramas por dia): crianas de at 3 anos devem consumir 14 gramas a 
cada trs dias. 
MOHAMAD BARAKAT 
So Paulo, SP 

Sou mdico e informo que, recentemente, o Instituto de Nutrio Humana da Alemanha publicou um artigo espetacular sobre a mediterrasian diet, que junta o que h 
de bom em duas das mais famosas culinrias saudveis, a mediterrnea e a asitica. Elas tm por base bioativos encontrados nos vegetais e so ricas em mega-3, graas 
aos peixes. Os asiticos, com a soja e o ch-verde, e os mediterrneos, com o vinho e o azeite de oliva, mostram o caminho da sade. 
FBIO CSAR DOS SANTOS 
So Paulo, SP 

Chocolate  para ser degustado, no comido desbragadamente. No se pode esquecer que cerca de 50% dos brasileiros esto com sobrepeso e quase 20% j so obesos. 
LUIZ ANTNIO DA SILVA 
Ribeiro Preto, SP 

LYA LUFT 
Sou professor h dezessete anos, amo minha profisso e parabenizo a escritora Lya Luft pelo artigo "Sem esforo e sem exemplo" (9 de outubro), que traz a realidade 
da sala de aula. Presencio isso semanalmente com colegas de profisso. J vi muitos se afastarem da sala de aula e fico pensando: ser que serei o prximo? Dou aula 
de redao e vejo alunos concluindo o ensino mdio sem saber redigir um pargrafo de forma clara e concisa. Leem um texto de baixa complexidade e no conseguem extrair 
o mnimo de informao contida nele. Mas esto entrando na faculdade. Que tipo de profissionais teremos?  realmente algo preocupante. 
BENEDITO SALAZAR SOUSA 
Imperatriz, MA 

Como professor de filosofia, seguidamente uso em classe os artigos excelentes de Lya Luft publicados em VEJA. S quem  professor conhece a realidade e se v com 
tamanha preciso no texto. O desrespeito pela carreira est assustando os jovens e impedindo que muitos deles sonhem com o magistrio. No somos culpados pelo abandono 
escolar, pelos ndices baixos, pelas reprovaes e atrocidades escritas em provas seletivas, mas, como ouvi em uma reunio pedaggica, somos responsveis por essa 
realidade. Lya, obrigado por entender o que sinto e por expressar de forma to potica a realidade dura de nossa carreira. 
RAFAEL DA ROSA 
Rosrio do Sul, RS 

A escritora Lya Luft est coberta de razo. Temos de rever tudo, desde o incio, ou a escola brasileira desaparecer. 
DBORA FUCIJI 
Franca, SP 

Finalmente algum escreveu a verdade sobre a educao brasileira. O problema est na facilidade dos polticos em inventar leis que tornem sua vida mais tranquila. 
Leis que tiram a responsabilidade de suas costas e enganam a populao. Lya lavou a minha alma. 
MANOEL FIGUEIREDO DE ALMEIDA 
Mangaratiba, RJ 

Claro que temos excees, mas vemos uma nao pauprrima, gramaticalmente falando, com o despreparo profissional e a corrupo tornando-se "algo normal". 
ANA MARIA SAMPAIO LOPES 
Garanhuns, PE 

Os governos petistas conseguiram destruir o Brasil, e o povo, cego por miserveis cdulas mensais, tornou-se escravo da ignorncia e da insensatez. 
SANDRA SILVA 
Alegrete, RS 

25 ANOS DA CONSTITUIO 
Passados 25 anos da promulgao da Constituio Federal brasileira,  estarrecedor e ao mesmo tempo frustrante que um de seus mais bonitos pargrafos, o que diz 
que "todos so iguais perante a lei'', muito pouco seja seguido ao p da letra ("O povo diante da lei", 9 de outubro). 
CLIO BORBA 
Curitiba, PR 

O principal mrito da Constituio de 1988 foi a consagrao das liberdades democrticas individuais: o direito do cidado de se manifestar publicamente, o fim do 
racismo, o livre exerccio dos cultos religiosos, o repdio  tortura, aos tratamentos desumanos e  censura. Mas ela cometeu um erro: proibiu a pena de morte. 
ARCANGELO SFORCIN FILHO 
So Paulo, SP 

Sob um governo que prima pela manipulao de massas e revela ser pouco adepto de mecanismos democrticos, a Constituio de 1988 se revela imensamente necessria. 
AMANDA SILVEIRA DIMBARRE 
Curitiba, PR 

MARINA SILVA 
Na reportagem "O dilema de Marina" (9 de outubro) ficou ntido o maior paradoxo j enfrentado pela ex-senadora e ex-ministra Marina Silva. Ela poderia desistir de 
disputar a eleio presidencial de 2014 e seguir os seus princpios, mas perderia a chance clara de se tornar presidente do Brasil; ou poderia aliar-se a outro partido 
poltico e, portanto, concorrer  eleio, mas deixaria de seguir s as propostas do partido Rede Sustentabilidade e causaria certo desconforto naqueles que pretendiam 
votar nela. A deciso de Marina, entretanto, foi ainda pior do que eu poderia imaginar, visto que se aliou a Eduardo Campos. 
ALYSON RIBEIRO 
Maraca, SP 

Os eleitores de Marina so puros, detestam a polarizao de dois partidos anacrnicos e viciados e querem uma mudana radical no comportamento da classe poltica 
brasileira. 
MRIO NEGRO BORGONOVI 
Rio de Janeiro, RJ 

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
No artigo "'Nomes ao lu" (9 de outubro), Roberto Pompeu de Toledo fez uma anlise oportuna, salpicada com uma crtica perfeita, dos 32 partidos polticos brasileiros. 
Esse nmero j  bastante para expressar o subdesenvolvimento do Brasil, mas pior que isso  a lamentvel e inescrupulosa poltica nele reinante, onde at um Solidariedade 
 aceito no Tribunal Superior Eleitoral enquanto talvez o nico partido capaz de representar o homem de bem  reprovado. 
MARIA THEREZA REZENDE TEIXEIRA 
Rio de Janeiro, RJ 

Roberto Pompeu foi ao cerne da questo poltica brasileira.  exatamente disso que se trata a poltica no Brasil. Basta parecer, mesmo que seja preciso fazer uma 
maquiagem. As dezenas de partidos polticos no pas no trazem nada de novo. Acham que colorem nosso cenrio poltico. Engano. S o tornam mais cinza. 
MARCUS DE MEDEIROS MATSUSHITA 
Barretos, SP 

DISTRITO FEDERAL 
Lamento que em nenhum momento a reportagem "Todos do mesmo lado" (2 de outubro) tenha citado que fui o nico deputado distrital a votar contra a aprovao das contas 
do ex-governador Jos Roberto Arruda, em pleito realizado no fim de setembro. Dezessete votos foram favorveis, s o meu, como presidente da Casa, foi contrrio, 
alm de ter havido uma absteno, da deputada Arete Sampaio (PT). No posso me calar diante da afirmao feita por esta revista, que pe todos os integrantes do 
PT como parte de uma negociata para se juntar ao PR, o atual partido do ex-governador Arruda. Votei com minha conscincia por conhecer profundamente o tema. 
WASNY DE ROURE 
Presidente da Cmara Legislativa do Distrito Federal 
Braslia, DF 

USP 
H vrios rankings internacionais, e o termmetro importante  a mdia das classificaes. Em rankings recentes, a Universidade de So Paulo (USP) obteve posies 
de destaque: no Academic Ranking of World Universities manteve a posio ocupada no ano passado (101-150), no QS Top Universities subiu doze posies, ocupando a 
127 classificao, e no World Reputation Ranking 2013, pelo segundo ano consecutivo, foi classificada entre as setenta universidades com melhor reputao em todo 
o mundo. Isso representa a diversidade dos critrios adotados, que, embora tenham como foco predominante indicadores relacionados  pesquisa, tambm tm como escopo 
de avaliao o ensino, a reputao acadmica e a internacionalizao, entre outros fatores. Uma anlise mais aprofundada do THE, de 2013, demonstra ter havido queda 
geral das universidades da Amrica Latina, o que aponta para a desvalorizao dessa regio geogrfica ante os olhos dos avaliadores. Quando se analisam as universidades 
mais bem classificadas, v-se que a USP tem sido uma exceo no que tange a sua idade, abrangncia, tamanho e nmero de alunos (SobeDesce, 9 de outubro). 
JOO GRANDINO RODAS 
Reitor da USP 
So Paulo, SP 

PRODUTIVIDADE 
Maravilha a reportagem "A chave  aumentar a eficincia" (9 de outubro), sobre ideias para elevar a produtividade. Sou gerente regional de vendas no Nordeste de 
uma das maiores empresas de alimentos do pas. Todos os dias iniciamos nossos trabalhos acompanhando esse indicador  produtividade. 
NEWTON HENRIQUE DE S FILHO 
Recife, PE 

CORREO: a Universidade Federal de So Carlos esclarea que seu prximo vestibular para o curso de pedagogia a distncia est previsto para o segundo semestre de 
2014 e que o contedo do curso  diferente do presencial com nfase na docncia dos anos iniciais do ensino fundamental, na educao infantil e na gesto escolar. 
O contato com os professores se d via internet ("Eles foram longe... sem sair de casa", 2 de outubro).

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o numero da cdula de identidade e o telefone do autor, Enviar 
para: Diretor de Redao, VEJA  Caixa Postal 11079  CEP 05422-970  So Paulo  SP; Fax (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, 
as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de 
cada semana.


1#7 BLOGOSFERA
ESPELHO MEU
LCIA MANDEL
O peeling  uma boa opo de tratamento para espinhas, mas no substitui o tradicional,  base de cremes e, eventualmente, com o uso de medicamentos por via oral. 
 que o efeito do peeling  pouco duradouro.
www.veja.com/espelhomeu 

FAZENDO MEU BLOG
PAULA PIMENTA
CLARICE FALCO
Adoro o trabalho da atriz Clarice Falco. O que pouca gente sabe  que seu talento vem de famlia! Muito antes de ela se tornar conhecida, seus pais j espalhavam 
arte por a. Joo Falco, o pai,  roteirista, diretor e compositor. E a me, Adriana Falco,  uma das minhas escritoras preferidas. Seu livro Luna Clara & Apolo 
Onze est na minha lista dos cinco melhores do mundo.
www.veja.com/paulapimenta 

COLUNA
REINALDO AZEVEDO
ECONOMIA 
Foi relativamente fcil para a gesto Lula crescer sob circunstncias que no eram de sua escolha nem dependiam da expertise do governo. No mandato de Dilma Rousseff, 
o PT est sendo convidado a demonstrar do que  capaz. Pelo visto,  capaz de produzir um crescimento mdio de 2,15%.
www.veja.com/reinaldoazevedo 

SOBRE PALAVRAS
DEUS DO SONO
O sucesso popular da expresso ''nos braos de Morfeu", velho chavo que significa ''adormecido'', leva muita gente a acreditar que, na mitologia grega, fosse Morfeu 
o deus do sono. Na verdade, ele era filho do deus do sono, chamado Hypnos, palavra grega que significa simplesmente sono. Foi a Hypnos que recorreu o mdico escocs 
James Braid em 1843, ao balizar de hypnotism (hipnotismo) sua tcnica de induo de um transe semelhante ao sono.
www.veja.com/sobrepalavras 

NOVA TEMPORADA
AGORA NA FRICA
A srie americana Desperate Housewives ganhou mais um remake internacional. O canal EbonyLife TV, da Nigria, acenou a produo de uma verso local da trama. Com 
o ttulo de Desperate Housewives Africa, a srie adaptar os roteiros da primeira temporada da produo americana. Uma Wisteria Lane j foi montada em um estdio 
de Lagos, cidade no litoral da Nigria. As filmagens dos episdios devem se iniciar nos prximos meses, com previso de estreia para 2014.
www.veja.com/novatemporada 

SOBRE IMAGENS
OS ANOS 1960
O fotgrafo Bill Eppridge, que morreu no dia 3, ficou mundialmente conhecido pela foto do assassinato do senador americano Robert Kennedy, irmo do presidente John 
Kennedy. Robert foi assassinado no hotel onde fez o discurso da vitria nas eleies primrias da Califrnia, em 1968. Provavelmente, Eppridge no contou apenas 
com a sorte para registrar o momento. Naquele tempo, ele trabalhava para a revista Life e era a sombra do poltico. Profissional experiente, Eppridge fez outro grande 
trabalho para a revista, a reportagem sobre o festival de msica Woodstock, que aconteceu em 1969.
www.veja.com/sobreimagens

 Est pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com


1#8 EINSTEIN SADE  PROBLEMAS NA COLUNA?
Tratamentos conservadores, aqueles em que no  necessrio realizar cirurgias, so os mais indicados.

 difcil encontrar uma pessoa que nunca tenha sofrido de dores na coluna. Estima-se que 80% da populao enfrente algum problema dessa natureza ao longo da vida. 
Em geral so crises pontuais, que desaparecem rapidamente. E nos demais casos a imensa maioria tem tratamento clnico. 
     Dos vrios tipos de doenas de coluna, a lombalgia mecnica comum (dor lombar)  a mais frequente, seguida das hrnias de disco e da cervicalgia comum (dor 
cervical). Cerca de 90% das ocorrncias respondem bem ao tratamento conservador. Para os outros 10%, a recomendao no  necessariamente cirrgica. A evoluo negativa 
pode estar ligada a fatores sociais, psicolgicos e genticos e a outras doenas associadas. Alis, a dor na coluna pode ser a principal ou a nica manifestao 
de outras doenas  e, ento, so estas que devem ser identificadas e tratadas. 
     O diagnstico correto  fundamental para determinar o melhor tratamento. Com exames de imagem cada vez mais detalhados e precisos,  essencial que o mdico 
faa uma boa correlao entre os resultados e o exame clnico do paciente. Nem sempre um problema identificado na ressonncia magntica ou na tomografia computadorizada 
 a causa da dor que o paciente est sentindo. 
     Em geral, os tratamentos conservadores envolvem administrao de medicamentos de acordo com cada caso  (analgsicos, relaxantes musculares, corticoides, etc.), 
fisioterapia e aes voltadas a mudanas de hbitos (postura, perda de peso, atividade fsica, etc.). 
     Um dos objetivos  minimizar a dor. Mas o principal foco do tratamento  preservar ou recuperar a capacidade funcional do paciente. Nessa sentido, a reabilitao 
fsica tem papel essencial. O planejamento fisioteraputico deve ser feito a partir de uma avaliao completa do paciente, histrico, eventuais doenas associadas, 
nvel de dor e condio muscular. So vrios es recursos que podem ser adotados, dentre eles terapias manuais, hidroterapia, eletroterapia (eletroanalgesia e Laser, 
dentre outros), calor mido, RPG, Rolfing e Pilates. Gradualmente, so introduzidos exerccios leves para fortalecer a musculatura abdominal e da coluna. Mais recentemente, 
foram includos tambm exerccios de fortalecimento do perneo (no assoalho plvico), pois a associao com o trabalho abdominal traz resultados positivos. 
     H, sim, casos de problemas de coluna em que a cirurgia  indicada e traz bons resultados. Mas so doenas e situaes especficas, que respondem por 4,5% a 
5% dos pacientes atendidos em consultrios ortopdicos. Nos demais casos, os melhores resultados viro com o tratamento conservador. 

Saiba mais sobre este e outros assuntos no site www.einstein.br
Sugira o tema para as prximas edies: paginaeinstein@einstein.br
Sua sade  o centro de tudo.
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Responsvel Tcnico:
Dr. Miguel Cendoroglo Neto - CRM: 48949

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2# PANORAMA 

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  PARA BAIXO, SANTO AJUDA
     2#2 DATAS
     2#3 HOLOFOTE
     2#4 CONVERSA COM ARTHUR ZANETTI  COMO GANHAR NO BRAO; E NA TCNICA
     2#5 NMEROS
     2#6 SOBEDESCE
     2#7 RADAR
     2#8 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  PARA BAIXO, SANTO AJUDA
De fracasso em fracasso, o presidente venezuelano apela para todos os truques.

A histria da Amrica Latina est cheia de caudilhos, lderes carismticos que querem "salvar o povo" e terminam arruinando-o. Piores ainda do que os salvadores 
da ptria so seus imitadores, que praticam os mesmos absurdos sem o manto da comunicao emocional com as massas. E o pior entre todos esses, hoje,  Nicols Maduro, 
que diariamente empurra a Venezuela para um buraco do qual talvez nem o mar de petrleo consiga tir-la. O que era histrinico em Hugo Chvez em Maduro vira pattico 
 inclusive as noites que passa com o eterno El Comandante, na base militar onde vai "refletir" bem pertinho do corpo sepultado. A ltima de Maduro foi, coberto 
de penduricalhos presidenciais, empunhar a imagem de um mdico milagreiro, pedindo proteo dos crculos superiores  sade da presidente argentina Cristina Kirchner. 
Maduro tambm tem outros projetos nada beatficos, como governar por decreto. "O governo teria de vir com tanques e fuzis", desafiou o principal oposicionista venezuelano, 
Henrique Capriles, que  governador estadual. No  impossvel que isso acontea. Diante da entropia econmica e do desabastecimento, resta reciclar o velho truque 
de declarar guerra aos inimigos malvados que at papel higinico fazem desaparecer. Maduro j prometeu ser um "novo Cristo dos pobres", numa comparao sacrlega 
com Chvez, e explora elementos da religiosidade popular. Ele e a mulher seguem os ensinamentos de Sai Baba, um enrolado guru indiano. Em maio, Maduro surpreendeu 
muitos venezuelanos ao propagar que seus avs eram judeus sefarditas, o que no impede sua tropa de choque de at hoje "acusar" Capriles de ser judeu. Em outras 
circunstncias, a multiplicidade confessional poderia ser uma vantagem. Mas est difcil algum santo  qualquer um  evitar que Maduro se desmanche.
VILMA GRYZINSKI


2#2 DATAS
MORRERAM
Norma Bengell, atriz e diretora de cinema, teatro e televiso. Em 1962, aos 27 anos, ganhou sbita notoriedade com o primeiro nu frontal das telas, em Os Cafajestes, 
de Ruy Guerra. Aqueles cinco minutos filmados numa praia de Cabo Frio ao lado de Jece Valado e Daniel Filho nunca mais descolariam da carreira de Norma. Ela voltaria 
a se desnudar em 2000, quando uma reportagem de VEJA revelou o desvio de dinheiro de financiamento pblico do filme O Guarani, dirigido por ela, para a compra de 
um apartamento de 1,1 milho de reais no Rio. Dia 9, aos 78 anos, de cncer no pulmo, no Rio de Janeiro.

Miguel Colasuonno, prefeito de So Paulo de 1973 a 1975. Indicado pela Assembleia Legislativa  naquele tempo os prefeitos eram chamados de "binicos" , inaugurou 
a primeira linha de metr completa da cidade. Desde 2008, era diretor de administrao da Eletrobras. Dia 4, aos 74 anos, de septicemia, em So Paulo.

O diretor de teatro, pera e cinema francs Patrice Chreau. Ele fez fama (e atraiu muitos detratores) ao levar para o teatro, em 1976, uma encenao do clssico 
O Anel do Nibelungo, tetralogia operstica de Richard Wagner, transportada para o cotidiano da era industrial. Foi um choque. No cinema, fez sucesso com A Rainha 
Margot, de 1994. Seu mais recente trabalho, uma adaptao da pera Elektra, de Richard Strauss, est rodando o mundo. Dia 7, aos 68 anos, de cncer no pulmo, em 
Paris.

Erich Priebke, ex-oficial da SS (fora de elite da polcia nazista), condenado a 100 anos de priso pelo Massacre das Fossas Ardeatinas, em Roma, que matou 335 civis 
italianos em 1944. O massacre foi uma represlia  morte de 33 soldados alemes. Priebke comandou as tropas que recolheram as vtimas nos presdios de Roma e as 
levaram  morte. Dia 11, aos 100 anos, em Roma.

A ex-prostituta Gabriela Leite, criadora da grife Daspu, em 2005, contraponto irnico  Daslu, a meca chique da moda em So Paulo. Gabriela d nome a um projeto 
de lei que tramita na Cmara e prope a regularizao do trabalho das prostitutas. Dia 10, aos 62 anos, de cncer, no Rio.

 SEG|7|10|13
PRESO
o qumico aposentado Joseph Callahan, que declarou ter planejado matar o guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards. A polcia encontrou um arsenal na manso 
de Calahan, na vizinhana de Richards, na cidade de Fairfield, em Connecticut.

 QUA|9|10|2013
INDICADA
a economista Janet Yellen, por Barack Obama, para assumir a presidncia do Federal Reserve, o Fed, banco central americano. A atual vice-presidente do Fed, de 67 
anos, deve assumir o cargo mais influente da economia mundial em janeiro. Antes ter de ser aprovada pelo Senado, onde Obama conta com o apoio majoritrio. Se confirmada, 
ser a primeira mulher a ocupar a presidncia do Fed em 100 anos de existncia do banco. O que ela pretende fazer? Mais de uma vez, Janet afirmou que, em momentos 
de desemprego elevado, a taxa de juros deve ser reduzida, mesmo ao preo de uma alta na inflao. O recado no poderia ser mais claro. Com Janet Yellen  frente 
do Fed, a poltica de juros baixos e estmulos monetrios deve ser mantida. Resultado: a bolsa americana fortalecida e o dlar enfraquecido.


2#3 HOLOFOTE
OTVIO CABRAL

 CANDIDATO ASSISTENTE
O PT procura repetir para a campanha da reeleio de Dilma Rousseff a aliana de dez partidos que a levou  vitria em 2010. Alm desses, quer deixar dois partidos 
aliados de fora, com candidatos prprios. Um para inviabilizar a realizao de debates, caso a vontade de Dilma seja evit-los. Debates s podem ocorrer com a concordncia 
de todos os participantes. O outro candidato serviria para atrair o eleitor evanglico, que na ltima eleio votou em peso em Marina Silva. Esse deve ser o pastor 
Everaldo Pereira, do PSC. 

 A QUARTA GERAO 
Filho mais velho do governador de Pernambuco, Joo Campos, de 19 anos, filiou-se ao PSB para ser candidato a deputado federal. A famlia de Eduardo Campos tem ao 
menos um representante em Braslia desde 1991, quando Miguel Arraes foi eleito. Com a candidatura presidencial de Campos e a indicao de sua me, Ana Arraes, para 
o Tribunal de Contas da Unio, a misso sobrou para Joo.  

 VERSO QUE NO CONVENCE
O deputado Vicente Cndido (PT), que ofereceu dinheiro a um conselheiro da Anatel quando foi pedir-lhe para aliviar multas aplicadas  operadora Oi, solicitou  
Corregedoria da Cmara que arquive o pedido de abertura de processo contra ele por quebra de decoro. Ele diz que agia em favor do setor de telefonia e confirma que 
tratou de "honorrios" com o conselheiro Marcelo Bechara  mas diz que se referia a honorrios advocatcios. Bechara reafirmar que houve, sim, uma oferta de propina. 
Funcionrio pblico no recebe honorrios. 

 EM BUSCA DE MAIS ESPUMA 
A Ambev. presidida por Joo Castro Neves, lana neste ms uma campanha para tentar recuperar a queda de mais de 5% na venda de cerveja no primeiro semestre. Criada 
pela agncia Loducca, ter o tema "Juntos por um mundo melhor" e mostrar aes sociais da empresa e o alerta sobre a proibio da venda de bebidas a menores. A 
primeira pea ser veiculada simultaneamente em 800.000 bares de todo o Brasil. 

 Plano de aposentadoria 
Silvio Santos tem confidenciado a pessoas prximas que quer se aposentar at o fim do ano que vem. Para evitar que a audincia do SBT despenque com sua sada, ele 
prepara uma nova grade de programao para a emissora. E pretende ter como principal atrao o apresentador Gugu Liberato. Fora da TV desde junho deste ano, ele 
lhe sucederia no comando da programao de domingo. Os dois tm se reunido em um lugar inusitado: o salo do cabeleireiro Jassa. O dono do SBT, porm, quer pagar 
menos do que os 3 milhes reais mensais que Gugu recebia da Record, na qual trabalhou por quatro anos. 

 A ficha mais suja 
Levantamento do Supremo Tribunal Federal aponta o ex-governador de Roraima e ex-deputado federal Neudo Campos (PP) como o poltico com a ficha mais suja do Brasil. 
Campos  ru em seis aes penais e catorze inquritos criminais apenas no STF, todos por peculato (apropriao indevida de dinheiro pblico). Responde ainda a sete 
aes penais no Tribunal Regional Federal por crimes de quadrilha, peculato e improbidade. Suas condenaes em primeira instncia j somam 51 anos de priso. Sem 
mandato desde 2010, Campos quer concorrer a uma vaga na Cmara, mas deve ter a candidatura impugnada. 

 H vagas para afilhadas 
Alm de ter contratado a namorada de Jos Dirceu, o presidente do Senado, Renan Calheiros, deu emprego a uma afilhada de Fernando Collor, seu aliado na poltica 
alagoana. Desde 2011, a jornalista Tain Falco recebe 4200 reais para, segundo a assessoria de Renan, "produzir textos jornalsticos sobre o trabalho do senador". 
Mas, no Senado, so poucos os que conhecem ou j viram a moa na Casa. Quem acompanha a rotina no gabinete de Renan diz que  mais fcil encontrar Tain  que  
filha do ex-deputado Cleto Falco  na Record, onde ela de fato d expediente como reprter dos telejornais locais. 


2#4 CONVERSA COM ARTHUR ZANETTI  COMO GANHAR NO BRAO; E NA TCNICA
O quase meio metro de circunferncia de muque foi essencial para o atleta paulista ganhar a medalha de ouro no Mundial de Ginstica na Blgica. Ele comeou treinando 
em aparelhos feitos pelo pai e tinha medo de altura.

Seus braos causam Inveja aos homens? 
Muitos me param na rua para perguntar o que eu fao. Eu at dou dicas de exerccios, mas mesmo o cara mais musculoso da academia jamais conseguir fazer a posio 
do Cristo. 

Em algum momento os msculos atrapalham? 
Na hora de comprar camisas. Elas ficam muito apertadas nos braos, que, flexionados, tm 40 centmetros. 

Tem algum truque nas argolas? 
Tenho um, que  passar mel nos punhos e nas mos antes de enfaix-las. Assim, o tecido adere e eu no escorrego. 

Todo esportista conta alguma histria de superao. Qual  a sua? 
Faltava dinheiro e meu pai, que  marceneiro, construa os aparelhos para que eu treinasse. Mas o maior problema foi meu medo de altura. S com muito treino o superei. 

A pouca altura incomoda? 
De jeito nenhum.  perfeita para ginasta de argolas. Quanto mais baixo, melhor, especialmente nos exerccios em que nos equilibramos, de braos abertos e paralelos 
ao cho. Tenho 1,56 metro e nunca quis ser mais alto. 

Voc  daqueles que levantam uma mesa pesada com um brao s? 
Sou. As pessoas me pedem para abrir coisas. Ana Maria Braga at pediu que eu abrisse um vidro de palmito. 

Como  o ginasta ideal? 
O que tem a disciplina e a seriedade da escola japonesa de ginstica e a tradio da italiana, uma grande formadora de especialistas em argolas. Alm disso, ele 
tem de ser preciso na entrada e na sada dos exerccios, pois  a que se ganham pontos preciosos. 

O que di mais: aquele movimento em cruz ou depilar as axilas? 
O movimento di muito mais. Depilo porque gosto,  uma opo esttica. 


2#5 NMEROS
6 milhes de pedidos de ingressos para a Copa do Mundo de 2014 foram feitos na primeira fase de venda, seis vezes o total de 1 milho de entradas postas  disposio.
8 milhes  o recorde de bilhetes solicitados nessa fase no Mundial da Alemanha, em 2006, Na frica do Sul, em 2010, houve 1,6 milho de pedidos.
2 dos 64 jogos concentram 25% de todos os pedidos de ingressos feitos at agora para a Copa  o de abertura e a final.
203 pases deram origem  procura por ingressos. Os brasileiros foram responsveis por 70% das solicitaes, seguidos dos americanos (6%) e dos argentinos (4,5%).


2#6 SOBEDESCE
SOBE
 Superjumbo - O A380, maior avio comercial em operao no mundo, comear a voar para o Brasil a partir de maio, na rota Paris-So Paulo.
 Exrcito eletrnico - Um jornal do governo chins revelou que o pas tem cerca de 2 milhes de censores na internet, mais que seu 1,5 milho de soldados.
 .qualquercoisa - A organizao que administra os sufixos de endereos na internet, como .com e .gov, aprovou 1745 novas palavras, como .pizza e .music, alm das 
22 existentes.

DESCE
 Supersalrios - Os salrios acima do teto de 28.000 reais, pagos a 1906 funcionrios da Cmara e do Senado, sero cortados a partir deste ms.
 Estado ingrato - Em escuta policial, o lder do PCC, Marcos Camacho, o Marcola, reclamou da falta de reconhecimento" pelo suposto papel da faco criminosa na 
queda dos homicdios.
 Emprego - O Brasil teve o pior resultado em uma dcada na criao de postos formais: apenas 1,148 milho no ano passado.


2#7 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 GOVERNO
E ENTO?
O PSB devolveu ministrios que tinha no governo Dilma. Beleza. Mas alguns ainda se refestelam em bons cargos federais. Roberto Amaral, vice-presidente do PSB, que 
o diga. Mantm-se no conselho de administrao de Itaipu e do BNDES, onde recebe um total de 25.000 reais por ms.

COTA PESSOAL
Em encontro recente, Dilma Rousseff consultou Renan Caldeiros sobre o que ele achava de Srgio Cabral virar ministro em janeiro. Renan respondeu que aquela era uma 
escolha da presidente. Um modo sutil de dizer que Cabral, se nomeado, seria um ministro da cota pessoal dela, no do PMDB.

 ELEIES 2014
DINHEIRO ESCASSO
Um experiente arrecadador de fundos para eleies garante: no h agora dinheiro para sustentar trs pr-campanhas  o perodo que vai de hoje a meados de 2014. 
Como a parte de quem  governo est sempre garantida, Eduardo Campos e Acio Neves tero de disputar a mesma grana.

AMIGO CONSELHEIRO
Em meio  guerra poltica em que se transformou a investigao do cartel no metr paulista, Gilberto Carvalho, de frias, encontrou-se na segunda-feira 7 num caf 
de Braslia com o presidente do Cade, Vincius Carvalho, aquele que precisa explicar  Comisso de tica da Presidncia por que omitiu do currculo o perodo em 
que trabalhou com um deputado petista. A conversa passou por temas importantes. Alm da delicada situao de Vincius, falaram da apurao do Cade sobre o cartel 
e da renncia de Elano Figueiredo da diretoria da ANS. Assim como Vincius, Figueiredo no incluiu no currculo uma informao fundamental: ter advogado para um 
plano de sade.

TEMPO QUENTE
Uma spera discusso h duas semanas teve como protagonistas Franklin Martins e o tesoureiro do partido, Joo Vaccari  tudo sob a vista de parte da cpula petista. 
Franklin apresentou o oramento de seu projeto para financiar as legies do PT nas redes sociais em 2014: 12 milhes de reais. Vaccari achou caro demais. Mais: o 
tesoureiro exigiu que Franklin recebesse sua remunerao por meio de uma agncia de publicidade. Franklin se recusou.

 BRASIL
EM BUSCA DO OURO
Assim como seu colega Arthur Lira (PP-AL), o notrio deputado Joo Carlos Bacelar (PR-BA), denunciado recentemente pelo MPF por falsidade ideolgica e peculato, 
tem procurado as mineradoras expondo os milhes de motivos que possui para interessar-se pela tramitao do projeto do novo Cdigo de Minerao.

TROCA DE COMANDO
A Fora Sindical vai trocar de presidente depois de treze anos. Paulo Pereira da Silva deixar o comando da segunda maior central sindical para dedicar-se exclusivamente 
ao Solidariedade. Seu sucessor ser Miguel Torres, presidente do Sindicato dos Metalrgicos de So Paulo.

 ECONOMIA
A CONSELHEIRA 1
O sempre movimentado mundo de Eike Batista ganhou nas ltimas trs semanas uma personagem que, pelo relato dos que o rodeiam, "hipnotizou" o ex-bilionrio e "se 
meteu com palpites em todos os negcios do grupo". Trata-se de Patrcia Coelho, uma advogada que Eike passou a apresentar como sua consultora. Ex-Opportunity, Patrcia 
 hoje scia de uma empresa de navegao, a Asgaard, que, alis,  a denominao do reino habitado por Thor, filho de Odin, o personagem mais prximo da figura de 
um deus supremo na mitologia nrdica. No confundir com Thor, filho de Eike.

A CONSELHEIRA 2
Patrcia prometeu reabrir as portas da Petrobras para Eike. No conseguiu. Mas o seu maior feito foi t-lo convencido a mandar sacar do BTG 100 milhes de dlares, 
que seriam usados para um investimento. A retirada foi brecada pessoalmente por Andr Esteves, dono do BTG. Eike acabou desistindo da operao. A propsito, o tal 
negcio estava sendo feito sem o conhecimento de Ricardo K. o recm-contratado reestruturador do grupo. 

 GENTE
O FUNDO DA "PORTA"
A TV  sua prioridade nmero 1, 2 e 3, mas Luciano Huck abriu um fundo para investir em startups: a Jo Investimentos, que tem participao em empresas embrionrias 
de moda (a grife Reserva), mobilidade urbana (o software do sistema de compartilhamento de bicicletas em operao no Rio de Janeiro, So Paulo, Recife e em outras 
capitais) e internet (o popularssimo Porta dos Fundos).


2#8 VEJA ESSA

A Siemens est disposta a discutir acordo para ressarcimento de eventuais danos causados aos cofres pblicos. - PAULO RICARDO STARK, presidente da empresa no Brasil, 
em depoimento  CPI dos Transportes Coletivos da Cmara Municipal da capital paulista; recentemente, a Siemens denunciou a existncia de um cartel destinado a influenciar 
a licitao de trens e metro em So Paulo. 

O voto proporcional em lista aberta acaba sendo um engodo. - LUS ROBERTO BARROSO, ministro do STF, em debate sobre os 25 anos da Constituio promovido pela Folha 
de S.Paulo; segundo ele, mais de 90% dos deputados federais devem  sua eleio no  votao em seus prprios nomes, e sim ao quociente eleitoral.

Ns deixamos a bola nos ps da CBF. - PAULO ANDR, zagueiro do Corinthians, aps reunio com a entidade, fazendo as vezes de porta-voz do Bom Senso F.C.,  grupo 
criado para discutir com os cartolas reivindicaes dos jogadores de futebol
 entre elas, mudanas no calendrio que permitam aos atletas pelo menos trinta dias ininterruptos de frias.

Os membros da Al Qaeda e outras organizaes terroristas podem, literalmente, correr, mas no podem se esconder. - JOHN KERRY, secretrio de Estado americano.

Eu tenho pressa. Sou uma mulher de 28 anos, na indstria do cinema, certo? Muito em breve, os papis que me oferecero sero todos para interpretar mes. E ento 
eles vo parar de chegar. - SCARLETT JOHANSSO atriz americana que se tornou a primeira mulher a ser eleita duas vezes pela revista Esquire como s mais sexy do mundo 
(havia vencido tambm em 2006).

 Imperdovel dizer isso agora, mas eu a admiro como mulher  sua boa aparncia, seu charme e seu porte sempre me atraram, como homem. - JOHN NOTT, ministro britnico 
da Defesa durante a Guerra das Malvinas, em carta de renncia ao cargo endereada, em 1983,  ento primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013); Nott revelou 
o contedo da correspondncia em seu livro de memrias, em que diz que Thatcner nunca lhe respondeu.

Ele me interrogou pessoalmente. - MICHELLE BACHELET, ex-presidente chilena e candidata  frente nas pesquisas para o prximo pleito presidencial, referindo-se 
a Manuel Centreras, lder mximo da Dina, a polcia secreta de Pinochet, em entrevista ao canal de televiso CNN Chile: Contreras havia dito que Bachelet nunca estivera 
em Vila Grimaldi, um dos principais centros de deteno e tortura durante a ditadura militar (1973-1990).

Todos ns cometemos erros. O presidente comete erros. Mas, ainda que os erros tenham sido cometidos, nossas decises fundamentais foram corretas. - BASHAR ASSAD, 
ditador srio, falando  revista alem Der Spiegel sobre a reao de seu governo aos protestos no pas.

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3# BRASIL 

        3#1 A VITRIA DA BADERNA
        3#2 EM DEFESA DA MAIORIA
        3#3 UNIDOS CONTRA O PT
        3#4 UM PRECEDENTE PERIGOSO
        3#5 UM PERFIL DIFERENTE
        3#6 OS TENTCULOS DO MENSALO NO EXTERIOR
        
3#1 A VITRIA DA BADERNA
Diante de uma polcia acuada, os arruaceiros se fortalecem e surgem mais violentos e destemidos do que no incio dos protestos
DANIELA LIMA E BELA MEGALE
     
     Horas depois da ao coordenada de black blocs que deixou destrudas lojas de So Paulo e do Rio de Janeiro e espalhou o pnico nas duas cidades, o comandante-geral 
da PM paulista, coronel Benedito Meira, pediu licena para mostrar um vdeo ao governador Geraldo Alckmin. Alm de oficiais da PM, estava presente  reunio toda 
a cpula da Secretaria de Segurana do Estado. No filme, gravado na segunda-feira em frente  Secretaria Estadual de Educao, no centro da capital, o que se via 
era uma fileira de mascarados vestidos de preto avanando na direo de uma acuada tropa de policiais militares. Provocando os homens com gritos como "no estudou, 
tem que estudar, para no virar polcia militar", os mascarados comeam lanando pedras na direo da tropa. "Calma, calma", orienta o oficial responsvel pelo agrupamento. 
Em seguida, vm as bombas. So trs estouros. Os policiais permanecem no lugar, tentando se defender atrs dos escudos. No fundo, a voz do comandante desestimula 
qualquer outra reao. "Mantenham a calma, mantenham a calma", insiste. 
     Ao ver o filme, um dos oficiais afirmou: "Eu no entro em favela com um 38 para combater traficante armado de fuzil. Tambm no posso reagir com um cassetete 
contra quem vem para cima com coquetis molotov". No mesmo dia, Alckmin decidiu revogar a proibio do uso de balas de borracha, suspenso desde 17 de junho. Quatro 
dias antes, uma atuao descontrolada da Tropa de Choque da PM atingiu com balas de borracha dezenas de manifestantes e jornalistas que cobriam protestos na regio 
central de So Paulo. Desde ento, as balas foram banidas no estado  junto com a autoridade da polcia, que passou a atuar intimidada, incerta de seus limites e 
receosa do julgamento da opinio pblica. 
     No Rio de Janeiro, uma situao parecida ocorreu. Depois dos primeiros protestos de junho, dos quais dezenas de pessoas saram feridas, os policiais no s 
pararam de impedir as depredaes como se deixaram encurralar por arruaceiros que invadiram a Assembleia Legislativa. 
     Alm da hesitao das polcias, nas duas cidades, afrouxaram-se os protocolos para lidar com as manifestaes. Em vez de cumprirem a regra de informar previamente 
s autoridades horrio e itinerrio dos protestos, os manifestantes passaram a improvisar livremente seus atos. A polcia tinha de descobrir onde eles ocorreriam 
por meio das redes sociais ou  medida que aconteciam. 
     Tudo isso fortaleceu os black blocs. Na semana passada, eles mostraram que esto mais organizados e mais bem armados. Os pedaos de pau e pedras deram lugar 
a esferas de ao e coquetis molotov, agora lanados com estilingues. Os rojes passaram a vir reforados com bolas de gude e outros objetos, de forma a se transformarem 
em morteiros lanados contra a polcia. "Houve um aumento da ousadia desses grupos que se infiltram nas manifestaes e atuam para desmoralizar o estado. Eles esto 
mais predispostos a partir para o enfrentamento", afirma o coronel Reynaldo Simes Rossi, comandante do batalho que monitora a regio central de So Paulo. "Tenho 
policiais afastados h mais de sessenta dias, homens com fratura de face, mandbula e risco de perder a viso", afirma. Um desses feridos foi atingido na segunda 
por um rolamento lanado por estilingue. O lado esquerdo de sua face ter de ser reconstitudo, e ele corre o risco de perder a viso. No h dvida de que a escalada 
da violncia dos black blocs se deu no vcuo da atuao da polcia. "Ficamos entre a prevaricao e o abuso de autoridade", reconheceu o secretrio de Segurana 
do Rio, Jos Mariano Beltrame. 
     Investigaes da inteligncia policial paulista mostram uma coordenao indita entre os grupos de vrias cidades, como se viu na segunda passada. Eles se provocam 
uns aos outros, numa competio para ver quem vai ser o mais violento. "Quando  que So Paulo vai dar um 'salve'?", cutucaram cariocas, usando a gria comum entre 
criminosos de faces como o Primeiro Comando da Capital (PCC) para designar uma ordem de ao criminosa. A comunicao se d sobretudo por meio de redes sociais 
como o Facebook e a N-1, mais difcil de ser rastreada. 
     Na reunio de segunda-feira com a cpula da segurana, o governador Alckmin recebeu das mos do delegado-geral da Polcia Civil, Luiz Maurcio Blazeck, um relatrio 
preparado pela equipe de inteligncia que revelava, entre outras coisas, que para organizar protestos nas redes sociais os black blocs criam vrios perfis falsos, 
de maneira a dificultar o rastreamento da polcia. A pea, com mais de 200 pginas, rene informaes trocadas pelos jovens que a polcia acredita serem os cabeas 
da violncia. 
     Embora tardia, a contraofensiva do estado  ao dos black blocs parece que comea finalmente a ser traada. Desde o incio dos protestos, j foram abertos 
cerca de 100 inquritos relacionados a vandalismo e agresses. Mas, como as investigaes so dispersas, os casos no andavam. Agora, todas as informaes sobre 
as lideranas dos black blocs sero organizadas em um nico inqurito. A ttica, espera-se, facilitar o enquadramento dos culpados em crimes como associao criminosa 
e formao de quadrilha, o primeiro passo para impedir que os presos de hoje de manh estejam na rua  tarde. 
     "Hoje, na maioria dos casos, o policial leva o indivduo para a delegacia e ele no passa nem uma noite l", diz o secretrio da Segurana Pblica de So Paulo, 
Fernando Grella. "Ser que isso  suficiente para inibir e punir esses comportamentos que, mais do que causar dano, ofendem a paz pblica, geram intranquilidade 
e afetam diretamente o direito de manifestao?", pergunta ele. Para quem no anda por a de cara tapada e molotov na mo, a resposta certamente  no. 

AS NOVAS ARMAS DOS BLACK BLOCS
Os baderneiros esto mais bem preparados e j enfrentam a polcia sem recuar.
MARTELO  Em vez de paus e pedras, o artefato que agora auxilia o quebra-quebra de vidraas de bancos, lojas e equipamentos pblicos  o martelo.
ESFERAS DE AO  Utilizados em maquinrio de setores como agricultura e construo, os rolamentos viraram armas contra policiais nas mos dos black blocs. Bolas 
de ao, comercializadas em diversos dimetros, passaram a ser lanadas por eles com o auxlio de estilingues.
ROJES-MORTEIROS  As bombas caseiras foram aprimoradas. Os black blocs colocam objetos dentro de rojes que, quando so acionados, funcionam como morteiros, atirando 
estilhaos perigosos na direo dos policiais. Os tradicionais coquetis molotov agora so lanados com estilingues, para aumentar o seu alcance.

E O EQUIPAMENTO DA POLCIA
As foras de segurana esto preparadas para lidar com os vndalos, mas ficaram acuadas nos ltimos meses.
BALAS DE BORRACHA  ltimo recurso da polcia, estavam banidas em So Paulo desde 17 de junho, depois que manifestantes e jornalistas foram atingidos. Voltaram a 
ser liberadas na semana passada, por causa da escalada de violncia dos black blocs.
ESCUDO E COLETE  PROVA DE BALAS
GS LACRIMOGNEO E BOMBA DE EFEITO MORAL  Lanados por uma arma que se assemelha a uma grande escopeta, servem para dispersar os vndalos.
TONFA  Espcie de cassetete,  usada tanto para conduzir manifestantes em aglomeraes quanto para o confronto.

COLABORARAM PMELA OLIVEIRA E LESLIE LEITO


3#2 EM DEFESA DA MAIORIA
Ao contrrio do que ocorre no Brasil, os policiais dos pases mais civilizados e democrticos do mundo so apoiados e admirados na conteno dos baderneiros.
MARIO SABINO, DE PARIS

     H poucas semanas, no final da tarde de um sbado j no to quente em Paris, os alto-falantes das linhas de metr com estaes na Champs-lyses anunciavam, 
a cada dez minutos, que os trens no parariam para embarcar ou desembarcar passageiros na avenida mais conhecida da cidade, por motivo de segurana. No havia problema 
nos trilhos ou ataque terrorista. Foi s uma maneira de evitar que uma passeata no autorizada contra o casamento gay fosse engrossada por simpatizantes ou confrontada 
por eventuais oponentes. Os manifestantes, um grupo catlico autointitulado Veilleurs, algo como "Vigias da Noite", haviam convocado simpatizantes para descer a 
Champs-lyses, do bairro modernoso de La Dfense em direo  Place de La Concorde, onde eles se concentrariam, acenderiam velas e rezariam pela revogao da lei 
aprovada, neste ano. Na quarta-feira anterior, a polcia j havia anunciado que no permitiria a passeata divulgada pelas redes sociais, visto que no fora contatada 
por interlocutores do movimento para conversar a respeito do assunto. "Todos os cortejos em vias pblicas devem ser precedidos por um aviso prvio, o que at o momento 
no foi feito", lembrou a polcia. Os manifestantes retrucaram, via redes sociais outra vez, afirmando que iriam fazer a passeata mesmo assim, porque eles andariam 
nas caladas, e no no meio da rua. Bravata. No houve passeata nenhuma  de trinta em trinta pessoas, sem carregar faixas ou gritar slogans, eles rumaram at a 
Place de La Concorde. Como era sbado  noite, e nada daquilo prejudicava a circulao na rea, j havia sido permitido que executassem a sua pajelana por l, sob 
os olhares de policiais e de poucos turistas. 
     Sim, voc leu certo: na Frana, manifestaes, sejam elas contra, a favor ou muito pelo contrrio, precisam ser autorizadas pela polcia ou elas simplesmente 
no ocorrem. Se se desrespeita a proibio ou as normas que a regulam so burladas, o resultado  previsvel e at desejvel pela maioria dos cidados: entra em 
ao o aparelho de represso do Estado, detentor, no contrato social, do monoplio das aes enrgicas. Na Inglaterra, as regras so semelhantes. Evidencie-se aos 
distrados que no se est falando de ditaduras ou arremedos de democracia, como Cuba, Coreia do Norte ou Rssia, e sim do ncleo duro do Ocidente, onde a liberdade 
de expresso, informao e opinio , mais do que clusula ptrea das respectivas constituies, ingrediente da receita essencial que o formou. As manifestaes 
ininterruptas no Brasil, da forma como vm se dando, so chocantes no exterior porque  incompreensvel para um cidado europeu que, num pas em que vigora a democracia 
plena, bandos de pessoas possam bloquear ruas a seu bel-prazer, infernizando o cotidiano de milhares de outras, para dar curso a reivindicaes de quaisquer sabores. 
Quanto  invaso cotidiana de prdios pblicos, de sedes de empresas e  depredao de bancos, lojas e estaes de metr  bem, a parece mesmo coisa de outro planeta. 
O dos macacos. 
     A ordem e o respeito  lei no so empecilho a protestos que fazem parte do jogo democrtico. Paris, na condio de capital francesa e centro de convergncia 
internacional,  uma festa  em especial, para manifestantes. Em Londres, no  diferente. Uma das principais caixas de ressonncia mundiais, a capital inglesa conta 
com protestos frequentes, controlados por regras estritas e policiais com grande grau de autonomia para lidar com possveis imprevistos. Neste momento, enquanto 
o reprter escreve, srios pr-interveno ocidental fazem algazarra l embaixo, ao lado da Assembleia Nacional francesa, na pracinha douard Herriot.  um ritual 
quase dirio. Os manifestantes chegam com antecedncia em relao  hora combinada. Podem ser imigrantes ilegais africanos querendo documentos, rabes gritando contra 
regimes despticos, franceses clamando por mais benefcios e por a vai. Eles se instalam na pracinha bloqueada por grades e vigiada por soldados, penduram os seus 
cartazes, agitam bandeiras, gritam, cantam, do entrevistas a reprteres e, depois de duas a trs horas, em mdia, se dispersam sem confuso, conforme o acertado, 
at as 9 da noite. Pois , tem horrio. Na gigantesca manifestao ocorrida contra o casamento gay, em janeiro, que reuniu 800.000 pessoas aos ps da Torre Eiffel, 
sob um frio de freezer, os oradores apressaram os seus discursos porque tudo deveria terminar s 8 da noite, segundo o acordado com a prefeitura e as foras policiais. 
     Horrio e lugar. Manifestaes diante do palcio presidencial do Eliseu. Proibido. Do palcio do primeiro-ministro, Matignon. Proibido. Do Senado, no Jardim 
de Luxemburgo. Proibido. Da Assembleia Nacional. Proibido. De ministrios. Proibido. Em avenidas vitais para a circulao de carros e transporte pblico. Proibido. 
Neste ano, por duas vezes tentaram pegar as autoridades de surpresa na Place du Palais Bourbon, em frente  Assembleia. Na primeira, em janeiro, agricultores sequiosos 
por mais subsdios governamentais apareceram de manh, espalharam alfafa nas adjacncias do porto e, quando estavam para soltar uma vaca amedrontada, pobrezinha, 
de dentro de um caminho (tima imagem para jornais e TVs), policiais chamados as pressas os impediram de faz-lo. Uma hora mais tarde, mais ou menos, a praa estava 
limpa  de manifestantes, alfafa e vaca. Na segunda, em maio, os Veilleurs irromperam  noite e se sentaram no cho da praa. Queriam fazer uma viglia de oraes 
madrugada adentro. Foram cercados por soldados, e um sargento lhes comunicou que seriam retirados  fora, caso resistissem a sair. O argumento de que queriam apenas 
rezar no comoveu as almas uniformizadas. "Rezar, aqui, tambm no pode", replicou o sargento. Tudo acabou na santa paz laica. 
     Na Frana, um decreto-lei de 1935 (h oitenta anos, portanto) definiu os parmetros a ser obedecidos por quem deseja exercer o direito de protestar nas ruas. 
Eis alguns: 
 Com trs dias de antecedncia, no mnimo, trs organizadores devem enviar uma declarao por escrito  prefeitura ou ao comando da polcia sobre a inteno de 
fazer uma manifestao. Dessa declarao precisam constar os seus nomes completos, os seus domiclios fixos, o dia, a hora e o itinerrio a ser seguido pelo cortejo 
ou, no caso de ser apenas uma concentrao de pessoas, sem passeata, o local escolhido para a gritaria. 
 Se a prefeitura ou a polcia estimarem que a manifestao constitui ameaa grave  ordem pblica ou que o aparato policial no est apto a garantir a segurana, 
elas podero proibi-la. 
     Antes que o leitor veja no segundo item uma forma de filtrar inconvenincias ideolgicas, diga-se que as interdies, por lei, devem ser exceo e que, na hiptese 
de os organizadores se acreditarem censurados, existe a possibilidade de recorrer a um juiz, em carter de urgncia. Das centenas de manifestaes que ocorrem em 
Paris a cada ano, no mais do que seis so vetadas. De acordo com a prefeitura, 40% so relativas a assuntos estrangeiros. Os srios l embaixo, na Place douard 
Herriot, por exemplo. 
     Governadores brasileiros decidiram proibir o uso de mscaras em manifestaes. No h nada de autoritrio nisso.  uma tima maneira de domar os incivilizados 
que se infiltram em atos que se querem civilizados  e de comear a civilizar quem pede mais civilizao, mas d uma piscadela cmplice aos baderneiros, para em 
seguida jurar que nada tinha a ver com eles. Segue-se, aqui, a cartilha da Frana, da Inglaterra e do Canad. Um decreto-lei do governo francs de 2009 vetou as 
mscaras completamente, seja no interior de um protesto, seja nos seus arredores, como forma de prevenir a ao de arruaceiros. Os desobedientes so detidos, fichados 
e tm de pagar uma multa de 1500 euros (ou 4500 reais). Em caso de reincidncia no prazo de um ano, o valor dobra. No Canad, uma lei aprovada recentemente pune 
com pena de at dez anos de priso quem participar mascarado de qualquer perturbao da ordem pblica. O motivo foi um tumulto em Vancouver, quando o time de hquei 
no gelo local perdeu a final do campeonato americano e o centro da cidade ficou praticamente  em runas. No  preciso pedir autorizao para organizar protestos, 
desde que eles no obstruam ruas nem caladas. Os policiais acompanham os cortejos e s entram em ao quando a coisa sai do controle. Foi o que ocorreu em Toronto, 
em 2010, durante uma reunio do G20 na cidade. Black blocs, sempre eles, resolveram incendiar viaturas de polcia e destruir agncias bancrias. Centenas deles foram 
presos e processados. " o que fazemos com criminosos", resumiu o prefeito David Miller. 
     Nos Estados Unidos, o histrico de represso desmesurada aos movimentos em defesa de liberdades civis, na dcada de 60, principalmente, constrange at hoje 
as autoridades de cada estado americano no estabelecimento de normas mais rgidas para manifestaes. "No entanto, impor restries de tempo, lugar e organizao 
a protestos passou a ser prtica comum, embora no inteiramente formalizada", diz o socilogo Alex Vitale, especialista em movimentos sociais do Brooklyn College, 
em Nova York. Em geral, so exigidos pedidos de permisso para ajuntamentos que excedam cinquenta pessoas, sem que sejam necessrias maiores especificaes. De qualquer 
forma, badernas esto longe de ser toleradas. Desde 1998, o direito de protestar tornou-se mais restrito no pas, se for considerado uma perturbao da segurana 
nacional  termo que costuma designar eventos que contem com a presena do presidente americano e convenes de partidos polticos. "Observamos que a polcia vem 
utilizando mais energia em oportunidades em que h pouca provocao por parte dos manifestantes", critica o especialista em resoluo de conflitos Stephan Sonnenberg. 
Talvez o senhor Sonnenberg pensasse diferente se estivesse do outro lado dos escudos de choque.  proibido, no entanto, policiais  paisana se misturarem a manifestantes. 
A sua identificao precisa estar bem visvel, ao contrrio do que acontece na Frana, onde quase sempre h agentes disfarados em meio a manifestantes. Por ocasio 
dos protestos do movimento Occupy Wall Street, Nova York ressuscitou uma legislao municipal datada de 1845, reeditada em 1965, que bania o uso de mscaras fora 
do mbito de festas. Justificou-se dessa maneira a priso de sete pessoas que usavam a carranca do personagem Anonymous. A deteno de mascarados no  automtica 
na cidade americana, mas, dependendo da situao, a lei escuda os policiais. 
     O uso de mscaras no  proibido na Inglaterra, mas os policiais tm o direito, por lei, de pedir a um manifestante que mostre o rosto em situaes nas quais 
eles julguem o sujeito perigoso  ordem pblica. Isso inclui maquiagens ou pinturas faciais que escondam a sua identidade. "Uma pessoa que se recusa a remover um 
item de vesturio ou outro qualquer, quando isso for solicitado por um policial no exerccio da sua atividade, comete uma infrao e poder responder por isso'", 
disse a VEJA Dave Lockyear, responsvel pela comunicao da polcia de Londres. Os policiais encarregados de zelar pelo bom andamento de um protesto podem deter 
um suspeito por um prazo de at 24 horas, extensvel por outras 24, perodo suficiente para que as engrenagens da Justia entrem em funcionamento, seja para abrir 
um inqurito, seja para liberar o detido. As regras para manifestaes na capital inglesa so detalhadas como as de Paris, com a diferena de que  necessrio notificar 
as autoridades com seis dias de antecedncia, no mnimo, e de que basta fornecer os dados de um nico organizador. O lado quase enternecedor  que a polcia londrina 
chama ateno para os benefcios que tem quem obedece s normas: "Voc pode encontrar a garantia de que o seu evento ou protesto no se chocar com o de outro grupo 
que pretenda utilizar os mesmos locais"; " Ns poderemos facilitar a realizao do seu protesto no que for possvel e aconselh-lo sobre a melhor forma de gerenci-lo": 
"Ns poderemos mant-lo a par de qualquer informao a respeito de quem queira protestar contra o seu protesto". 
     O carrasco-mor da Revoluo Francesa, Maximilien de Robespierre, afirmou, em 1794, que, "quando o governo viola os direitos do povo, a insurreio  para o 
povo o mais sagrado e o mais indispensvel dos deveres". No mesmo ano, ele perderia a cabea na guilhotina, em outra prova de como, naquele perodo, a violao dos 
direitos populares ainda era uma questo que dependia somente do ponto de vista de quem puxava a corda que fazia descer a lmina. Paris foi moldada fisicamente por 
insurreies  essa  a palavra que interessa aqui. No fim do sculo XVIII, os revolucionrios aproveitaram-se das estreitas e tortuosas ruas medievais para erguer 
barricadas, fugir das tropas reais ou encurral-las. A intrincada malha urbanstica ajudou-os, assim, a derrubar a priso da Bastilha, promover o quebra-quebra de 
outros smbolos da monarquia absolutista e vandalizar igrejas. Durante a "primavera dos povos", em 1848, idem. Em 1871, com a maior parte das reformas efetuadas 
por Georges-Eugne Haussmann j realizadas, os rebeldes da Comuna de Paris encontraram muito mais dificuldade para manter a cidade em seu poder. 
     Isso porque, sob os auspcios de Napoleo III, sobrinho do Bonaparte corso, Haussmann havia posto abaixo o emaranhado de casarios insalubres da Idade Mdia, 
retificado os quarteires, rasgado a paisagem com avenidas largas e parques e definido o gabarito para as construes parisienses que vigora at hoje inalterado 
no essencial. O propsito ia alm do embelezamento e da modernizao da capital da Frana. Tratava-se, ainda, de desenhar uma geografia que permitisse s autoridades 
mais eficcia na conteno de insurreies  eis a a palavrinha outra vez , por meio do rpido deslocamento de soldados e do uso de canhes. Os (pouqussimos e 
tardios) resistentes franceses, alis, experimentaram o efeito Haussmann sob a Paris ocupada pelos nazistas. Em maio de 1968, os estudantes amotinados no Quartier 
Latin lanaram mo da derradeira arma antiga  disposio de insurretos  paraleleppedos arrancados do pavimento das ruas. O governo do presidente Charles de Gaulle, 
ento, decidiu asfaltar a regio conhecida como a Velha Paris. 
     As insurreies no Ocidente  contra reis tirnicos, metrpoles coloniais, ditaduras ou invasores estrangeiros  foram um fator decisivo para a construo da 
democracia. O seu sucedneo, numa escala que se diria evolutiva, so as manifestaes pacficas, como forma de presso sobre os representantes do povo nos poderes 
constitudos. No bero do Ocidente, elas so asseguradas pelo artigo 10 da Declarao dos Direitos do Homem e do Cidado e pela Conveno Europeia dos Direitos Humanos. 
A redao desta ltima  exemplar: "A liberdade de manifestar a sua religio ou as suas convices no pode ser objeto de restries que no aquelas que, previstas 
pela lei, so necessrias, em uma sociedade democrtica, para a manuteno da segurana, a proteo da ordem, a sade ou a moral pblicas, ou a proteo dos direitos 
e das liberdades dos demais indivduos". Ou seja, insurreies na plena vigncia do estado de direito no passam de tentativa de destruio do arcabouo democrtico 
e, por isso, devem ser reprimidas. 
     Nos pases civilizados, insurreio  um conceito que se estende do enfrentamento armado com as foras da ordem  desobedincia constante aos marcos reguladores 
das manifestaes legtimas. Marcos que, no caso especfico das passeatas, visam a que a liberdade de expresso no se sobreponha a outra liberdade fundamental: 
a de ir e vir de todos os cidados. Nesse contexto, a polcia est investida do poder de reagir com firmeza contra aqueles que desrespeitem os limites e confrontem 
a democracia. Em maro, o movimento contra o casamento gay (ainda  o maior assunto na Frana, fazer o qu?) promoveu quatro passeatas simultneas em Paris. Numa 
delas, um grupo de ultradireita resolveu promover um dbordement, um transbordamento do circuito combinado. Os policiais impediram a ao, os ultradireitistas decidiram 
enfrent-los  e tomaram pau. Ningum, absolutamente ningum, censurou o uso de fora. Pelo contrrio, a polcia foi elogiada  esquerda e  direita. Tome-se um 
exemplo oposto. Na comemorao da conquista do campeonato francs de futebol, em maio, o Paris Saint-Germain escolheu como palco da festa o Trocadro, o lugar de 
onde se tem a melhor vista para a Torre Eiffel. No fim, arruaceiros iniciaram uma confuso. Os policiais partiram para cima, conforme o manual, com o lanamento 
de gs lacrimogneo e o disparo de balas de borracha  mas se viram criticados por no ter evitado a baguna a tempo. D para imaginar isso no Brasil? 
     Cassetetes, tasers, canhes snicos, balas de borracha e bombas de gs lacrimogneo fazem parte do equipamento dos policiais destacados para enfrentar multides. 
Elimin-los, como chegaram a sugerir desmiolados em So Paulo, equivaleria a mandar um gladiador desarmado para uma arena cheia de lees.  importante notar que 
todas essas armas foram desenvolvidas para no causar mortes nem ferimentos demasiado graves, quando usadas com percia. So sinnimo de energia, no de selvageria, 
como parecem acreditar os sambistas brasileiros que defendem os black blocs contra a polcia, numa inverso de valores que  uma das nossas tristes verdades tropicais. 
s voltas com motins violentos nas banlieus, as periferias das grandes cidades, protagonizados em sua maioria por jovens imigrantes, as autoridades francesas, em 
2011, deram um passo alm. Se atacados com armas de fogo durante uma manifestao, os policiais foram autorizados a responder com balas de verdade  desde que provenientes 
de fuzis de repetio, calibre 7,62 x 51 mm. 
     Houve quem gritasse contra a medida, afirmando que se tratava de um retrocesso aos tempos de Napoleo Bonaparte. Boa parte da ascenso de Napoleo ao poder 
se deve ao fato de ter esmagado, em 1795, uma insurreio monarquista que ameaava a Conveno Nacional, a instncia mxima de governo dos revolucionrios franceses, 
instalada no ento Palcio das Tulherias (incendiado em 1871, por ancestrais dos black blocs). Napoleo mandou as tropas sob o seu comando utilizar artilharia pesada 
 canhes de boca larga, como os expostos nos invalides, para ser mais exato  contra os rebelados, matando 1400 deles. Evidentemente, trata-se de uma comparao 
exagerada. A permisso para usar armas de fogo contra manifestantes  restrita a casos extremos e s foi possvel porque os franceses contam com policiais muito 
bem treinados. 
     Em 1969, um ano aps os distrbios causados pela estudantada da Sorbonne, em Paris, Charles de Gaulle inaugurou o Centre National d'Entranement des Forces 
de Gendarmerie (CNEFG), onde as forcas antimotim so adestradas para executar as suas funes. Todos os policiais pertencentes a essas corporaes passam pelo complexo 
localizado em Saint-Astier, a 500 quilmetros a sudoeste de Paris, que nos seus 140 hectares abriga at mesmo uma pequena cidade artificial que serve de cenrio 
a simulaes de revoltas. De dois em dois anos, os gendarmes, como so chamados esses soldados na Frana, so obrigados a fazer uma reciclagem no CNEFG, que, como 
o maior centro desse tipo da Europa, recebe alunos da Itlia, Espanha e Holanda, entre outras naes. O lema do CNEFG  "O policial age como ele treina. Ele, ento, 
deve adestrar-se como quer agir". A responsabilidade , desse modo, tambm do guardio da ordem. Graas ao treinamento intenso e contnuo, voc jamais ver um batalho 
francs acuado como os pelotes de choque brasileiros. Recomenda-se aos governantes brasileiros estabelecer uma parceria com o CNEFG. 
     Agora, no fim desta reportagem, os srios pr-interveno ocidental deram lugar a manifestantes africanos que pedem o visto de residncia permanente na Frana. 
So os mais barulhentos. Mas nenhum deles ousa pensar em atirar uma pedra numa das janelas da Assembleia Nacional. 
COM REPORTAGEM DE TATIANA GIANINI


3#3 UNIDOS CONTRA O PT
Ex-ministros do governo do PT e agora aliados, Eduardo Campos e Marina Silva tentam superar suas divergncias. E. ao contrrio do que quer fazer crer o PT, a mais 
crucial no  sobre quem ser o cabea de chapa.
OTVIO CABRAL

     O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB,  um liberal nos costumes. Quando ministro da Cincia e Tecnologia, comandou a aprovao das pesquisas com 
clulas-tronco e defendeu a liberao do aborto nos casos previstos em lei.  um defensor do agronegcio e sofre crticas de ambientalistas, principalmente por ter 
permitido o desmatamento de manguezais para a construo do Porto de Suape, que rendeu 2,5 milhes de reais de multa a seu governo. J a ex-senadora Marina Silva 
 conservadora nos costumes. Fiel da Assembleia de Deus,  contra a pesquisa com clulas-tronco e qualquer tipo de aborto. Tem restries ao agronegcio e prioriza 
as questes ligadas  preservao do meio ambiente. Todas essas diferenas, porm, foram deixadas de lado. Agora aliados, Campos e Marina tentam superar suas divergncias 
 e, ao contrrio do que quer fazer crer o PT, a mais crucial delas no  sobre quem ser o cabea de chapa. "Fomentar essa intriga s interessa ao PT", disseram 
ambos na semana passada. 
     Os novos aliados j tinham atuado juntos no governo do PT. Campos ocupou a pasta da Cincia e Tecnologia entre janeiro de 2004 e julho de 2005. Deixou o cargo 
no auge do mensalo para assumir a linha de frente da defesa de Lula na Cmara dos Deputados. No ano seguinte, elegeu-se governador de Pernambuco derrotando o PT. 
Marina teve uma vida mais longa no Ministrio do Meio Ambiente, que comandou entre 2003 e 2008. Pediu demisso por discordar de Lula e da ento chefe da Casa Civil, 
Dilma Rousseff, em temas como a liberao do plantio dos alimentos transgnicos e a construo de hidreltricas na Amaznia. Como  comum em partidos que flertam 
com o autoritarismo, o PT no aceitou as divergncias e transformou os antigos aliados em inimigos. Ao anunciar a parceiros sua filiao ao PSB, Marina culpou o 
partido do governo pela deciso da Justia que impediu a criao da legenda que tentava formar, a Rede Sustentabilidade. Acusou ainda o PT de ter contratado 2000 
pessoas para difam-la nas redes sociais. Sobre a deciso de unir-se a Campos, disse que a tomou, sobretudo, porque ele  o candidato que ela enxerga como capaz 
de enfrentar petistas e tucanos. 
     A deciso de Marina surpreendeu at mesmo Campos, o maior beneficiado por ela. Ele tinha acabado de acompanhar a mulher, grvida, a uma consulta mdica quando 
recebeu um telefonema do senador Pedro Simon (PMDB-RS), s 11h30 da sexta 4, avisando que Marina o procurava. Campos mandou um emissrio, o senador Rodrigo Rollemberg 
(PSB-DF), encontr-la. Duas horas depois, Rollemberg ligou com a notcia bombstica: A Marina quer se filiar ao PSB para ser sua vice. E quer que voc venha agora 
a Braslia conversar com ela". Incrdulo, Campos retrucou: "Rodrigo, voc tem certeza de que ela falou isso?". Na tarde seguinte, a aliana foi anunciada. 
     Desde ento, h mais perguntas do que respostas. A principal  como uma candidata que est em segundo lugar nas pesquisas, com cerca de 20% das intenes de 
voto, pode desistir para apoiar algum com um quarto de sua popularidade. Quando aderiu a Campos, Marina j no tinha mais pretenso de ser candidata. Ela sabe que 
ele  o "dono" do PSB e isola quem o enfrenta, como acabou de acontecer com os irmos Cid e Ciro Gomes. Portanto, se fosse para ser candidata, ela teria escolhido 
outro partido, no qual tivesse o controle  no se filiaria a um que j tem seu comandante. Mas essa tambm deixou de ser uma alternativa depois que a Rede foi vetada. 
Se ela fosse para um partido nanico apenas para se candidatar, seria comparada aos polticos que sempre disse combater. Para justificar sua deciso, Marina apontou 
em conversas reservadas a sade frgil como potencial empecilho para uma agenda de campanha presidencial ("Eu seria desossada") e disse achar bom ter a seu lado 
algum com experincia em gesto ("Algum para realizar meus sonhos enquanto eu continuo sonhando"). Mas, se, como  provvel, as pesquisas continuarem mostrando-a 
 frente de Campos, as presses pela inverso da chapa sero inevitveis. A dupla tambm precisar construir um programa de governo que concilie posies aparentemente 
inconciliveis, como a proximidade de Campos com o agronegcio, que tem em Marina uma inspetora intransigente. 
     H ainda fatores extemos que precisam ser superados para a dupla se tomar competitiva. Marina, por no ter partido, no agregou tempo de TV aos dois minutos 
que o PSB j tem. Os palanques nos estados ainda so escassos. E h dois adversrios com estrutura muito mais profissional. Dilma Rousseff tem toda a mquina do 
governo e do PT. E o ex-governador Acio Neves, que se casou h duas semanas com a bela ex-modelo Letcia Weber, conta com a fora do PSDB que preside, que comanda 
os governos de So Paulo e Minas. Campos e Marina apostam em um discurso contra essa polarizao e na pregao de "uma nova maneira de fazer poltica", que uniria 
os melhores de cada partido. 
     Na madrugada de sbado, quando comemorava a aliana tomando usque com meia dzia de aliados, Campos perguntou: "Como esse nosso exrcito de Brancaleone conseguiu 
chegar at aqui?". Diante das risadas de todos, continuou: "E como vamos fazer para vencer essa guerra?". A essa pergunta ningum ousou responder.  

"NO AJO POR VINGANA" 
Marina afirma que apoia Campos a porque teve sua candidatura vetada pela Justia, admite divergncias com ele, mas diz que os dois lados tero de ceder um pouco. 
Por que dois ex-ministros do governo do PT se uniram para derrotar o PT? Essa aliana no  contra ningum,  a favor da poltica. Ningum suporta mais esse atraso 
que pode minar as conquistas dos governos de Fernando Henrique, Lula e Dilma. E s uma terceira fora poder mudar o pas. No ajo por vingana, mas por legtima 
defesa da esperana. 
Nessa aliana, o candidato a presidente tem um quarto das intenes de voto da vice. Como resistir s presses para inverter a chapa? O Eduardo  o candidato, eu 
jamais discuti isso. Eu tive negado o direito de me candidatar pela Rede e procurei dispor minhas ideias a quem se comprometesse com elas. E ele se comprometeu. 
Aliados reclamaram de sua entrada em um partido tradicional, com o qual j teve divergncias. Como super-las? Ns somos de partidos diferentes e faremos um esforo 
para montar uma candidatura nacional. As divergncias, obviamente, existem. E os dois lados tero de ceder um pouco nos caminhos que planejavam trilhar. 
O PSB tem posies contrrias s da senhora em questes ambientais e est aliado a produtores rurais, como Ronaldo Caiado... H valores com os quais eu no transijo. 
Sou uma rdua defensora dos direitos dos ndios, da reforma agrria e do meio ambiente. Por isso eu no aceitei dividir o mesmo palanque com o Caiado, que prega 
completamente o oposto. Outros vo ficar pelo caminho,  natural.

Chega de PT x PSDB" 
Eduardo Campos admite ter divergncias com Marina e diz que o fato de ter um quarto das intenes de voto da vice no levar a presses pela inverso da ordem da 
chapa. 
Por que dois ex-ministros do governo do PT se uniram para derrotar o PT? No se trata apenas de derrotar o PT, mas de enfrentar uma situao concreta. O Brasil precisa 
preservar as conquistas da redemocratizaco, da estabilidade econmica e da incluso social. Mas tem de melhorar a qualidade de vida, o transporte, a sade e a educao. 
E isso s ser possvel com a retomada do debate poltico e o fim dessa polarizao. Chega dessa disputa entre PT e PSDB. 
Nessa aliana, o candidato a presidente tem um quarto das intenes de voto da vice. Como resistir s presses para inverter a chapa? A candidatura que j estava 
posta era a minha, e a Marina veio adensar esse projeto. No  hora de ficar discutindo inteno de voto. 
Aliados de Marina reclamaram de ela ter entrado em um partido tradicional, com o qual j teve diferenas. Como superar as divergncias? No  uma aliana entre iguais. 
Eram dois projetos distintos que, por contingncia, se uniram. No tivemos nem uma semana para tratar das divergncias ainda. No  um problema exclusivo nosso. 
Ou o PT tambm no tem diferenas com o PMDB? 
Marina tem posies conservadoras em temas como drogas e aborto. Como ter como vice algum to diferente? No acredito que essas questes gerem incompatibilidade. 
O Brasil j tem legislao consolidada sobre todos esses temas. Mesmo dentro de uma famlia no h consenso, imagine em um partido. 


3#4 UM PRECEDENTE PERIGOSO
Ao reduzir a dvida de So Paulo para ajudar Haddad, a Fazenda solapa a Lei de Responsabilidade Fiscal.

     Nos anos 90, o governo federal brasileiro tomou recursos da ordem de 100 bilhes de reais no mercado financeiro internacional para assumir as dvidas dos estados 
e municpios, ento quebrados por anos de finanas descontroladas. O objetivo era sanear as contas pblicas, ao que ocorreu paralelamente ao fechamento dos bancos 
estaduais (na prtica, entidades cuja funo principal era distribuir empregos para apaniguados e operar como caixas paralelos). A renegociao das dvidas permitiu 
a aprovao da Lei de Responsabilidade Fiscal, considerada a mais importante reforma nas contas pblicas feita na histria recente do pas, e sem a qual o futuro 
do real seria posto em dvida. Um projeto de lei que tramita na Cmara pode pr em risco essa conquista e abrir um precedente perigoso na administrao das finanas 
pblicas. 
     A proposta estabelece uma mudana do indexador e a reduo nas taxas de juros que corrigem as dvidas dos Estados e municpios com a Unio. Atualmente, a frmula 
usa o ndice Geral de Preos  Disponibilidade Interna (IGPDI), somado a uma taxa de ate 9% ao ano. Pelo projeto, passaria a ser cobrado o ndice Nacional de Preos 
ao Consumidor Amplo (IPCA), mais 4%, ou a taxa Selic  o que quer que resulte em juros menores. O projeto vai alm. No apenas prope alterar os ndices daqui para 
a frente, como tambm faz com que seus efeitos sejam retroativos. A alterao cai como uma luva para a cidade de So Paulo, sob a administrao do petista Fernando 
Haddad. A dvida atual do municpio com a Unio seria reduzida  em 40%, caindo de 54 bilhes de reais para 30 bilhes de reais. Alm disso, o municpio poderia voltar 
a contrair financiamentos, o que no acontece desde a dcada de 90, j a partir de janeiro do ano que vem. O governo petista teria assim mais projetos para exibirem 
um ano eleitoral. So Paulo ganhar mais porque paga atualmente juros punitivos, mais altos, por no ter amortizado 3 bilhes de reais da dvida, em 2002, quando 
a prefeita era a tambm petista Marta Suplicy. O projeto j passou pela Comisso de Finanas e Tributao da Cmara e, depois de ser aprovado pela Comisso de Constituio 
e Justia e de Cidadania da mesma casa e pelo plenrio, precisar ser apreciado tambm pelo Senado. Com amplo apoio no governo e na Cmara, dever ser promulgado 
em breve. 
     O problema  que a Lei de Responsabilidade Fiscal probe terminantemente, em seu artigo 35, as operaes de crdito entre entes da Federao, ainda que essa 
operao seja feita de forma indireta. A reduo do saldo devedor configura um claro refinanciamento de dvida. Para So Paulo ganhar o alvio fiscal, a dvida total 
da Unio ter de ser aumentada. Um caso tpico de benefcio com chapu alheio. 
ANA LUIZA DALTRO


3#5 UM PERFIL DIFERENTE
A presidente Dilma apresenta aos brasileiros a candidata Dilma. Ela  to diferente da chefe do Executivo...  a campanha eleitoral de 2014 nas ruas.
DANIEL PEREIRA E ADRIANO CEOLIN

     Intransigente com a corrupo. Avessa a conversas com as raposas da poltica. Intolerante com a ganncia de banqueiros e empresrios. Sem tempo para cerimnias 
oficiais, eventos pblicos e convescotes em geral, diante do desafio hercleo de destravar a infraestrutura do pas. Desde a posse de Dilma Rousseff na Presidncia, 
o marketing oficial se empenhou para vender essa imagem de mandatria aos brasileiros. A estratgia rendeu frutos, e Dilma alcanou altos ndices de popularidade. 
Foi assim at o fantasma da inflao, as manifestaes populares e a antecipao da campanha presidencial baterem  porta do Planalto. O novo cenrio obrigou Dilma 
a deixar o figurino de presidente severa e encastelada em segundo plano e vestir de vez a fantasia de candidata. Uma candidata que  quase a anttese da gerente 
durona. Em sua nova verso eleitoral, Dilma redime acusados de corrupo, confraterniza com lderes partidrios e corre para os braos do povo. Tudo com sorriso 
no rosto. Tudo com direito a afagos nos interlocutores. Tudo em nome da reeleio. "Estou na fase dos grandes beijos, fase de beijos com o Brasil", justifica a presidente. 
     Na semana passada, esse clima de paz e amor reinou em Braslia. Primeiro, Dilma recebeu caciques de legendas governistas para uma conversa no Planalto. Presidente 
e candidata atenderam, assim, aos apelos do ex-presidente Lula e da classe poltica, que se sentia desprestigiada. Depois, a candidata convenceu a presidente da 
Repblica, os comandantes da Cmara e do Senado, quatro ministros de Estado e uma dezena de parlamentares a sancionar uma lei que beneficia os taxistas na prpria 
sede do sindicato da categoria em Braslia. Durante uma hora, na tarde de quarta-feira, a alta cpula da Repblica beijou a mo de uma centena de trabalhadores arregimentados 
como plateia, de olho nos votos dos 600.000 taxistas do Brasil. Quem discursou, obviamente, foi a candidata, e no a tcnica do PowerPoint: "Quantas crianas no 
nasceram pas afora num txi? Quantas pessoas no tomaram sua cervejinha com a segurana de que podiam tomar um txi e chegar em casa tranquilas?". Dilma j havia 
participado nos ltimos dias de cerimnias no Rio Grande do Norte e no Paran. 
     O plano de aumentar o ritmo de viagens ganhou corpo com a recente queda de popularidade do governo e o acirramento da campanha. De incio, a meta de Dilma era 
priorizar visitas a So Paulo e Minas Gerais, estados governados pelo rival PSDB. Com o anncio da aliana entre o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e a 
ex-senadora Marina Silva, haver ateno redobrada tambm com a Regio Nordeste. Orientada pelo grupo que coordena sua campanha, a candidata Dilma cuidar de segmentos 
com os quais a presidente pouco dialogou.  o caso dos jovens, por exemplo. Depois de mais de trs anos de inatividade, Dilma retomou sua atuao no Twitter. Ela 
conversou com o seu perfil falso mais famoso na rede social. A ao foi arquitetada pelo porta-voz da Presidncia, Thomas Traumann. Ele perguntou a Colin Crowell, 
executivo mundial do Twitter, como poderia ser a reestreia de Dilma. Crowell sugeriu que ela repetisse a estratgia da ex-secretria de Estado dos EUA Hillary Clinton, 
cuja primeira mensagem foi justamente para dialogar com um perfil dedicado a ela. Dilma seguiu a dica e ainda posou para fotos com Jefferson Monteiro, o criador 
de "Dilma Bolada", personagem popular especialmente entre os jovens. A repercusso foi imediata. Desde ento, ela conquistou mais de 40.000 seguidores no Twitter. 
     Dilma tambm se empenhar para azeitar a relao com a iniciativa privada, considerada fundamental para tirar do papel investimentos em aeroportos, estradas 
e ferrovias. Tentar selar com o setor uma parceria ou, pelo menos, uma convivncia menos conflituosa. "Enquanto a Dilma achar que os empresrios so ladres, e 
os empresrios acharem que ela  comunista, no vai dar certo", diz um conselheiro da presidente. No prximo dia 21, Dilma acompanhar in loco o leilo do campo 
de Libra do pr-sal. A ideia  aparecer na foto ao lado dos investidores  e dos bilhes de dlares que sero anunciados no desfecho do prego. Nos bastidores, a 
campanha tambm avana a passos largos. Na quinta-feira, em pleno horrio de expediente, Dilma se reuniu no Alvorada com o ex-presidente Lula, o marqueteiro Joo 
Santana, o ex-ministro Franklin Martins, o presidente do PT, Rui Falco, e o ministro Aloizio Mercadante. Durante quatro horas, traaram estratgias para minar a 
dupla formada por Campos e Marina. A prioridade  impedir que os rivais tenham palanques fortes nos estados e fechem alianas com partidos que hoje esto no consrcio 
governista. 
     A arma a ser empregada para desidratar a "terceira via  conhecida: Dilma usar a reforma ministerial para distribuir cargos a siglas como PMDB, PR, PP, PDT, 
PTB e PSD. Como o prprio Lula ressaltou na reunio, Campos e Marina tm grande potencial, mas continuam com um tempo minguado de propaganda na TV. Os governistas 
tm de agir para que esse cenrio no mude. Eles disseminaro tambm a ideia de que apoiar as chapas alternativas  um risco, j que no haveria a certeza, atualmente, 
de que Campos e o senador Acio Neves (PSDB) sero mesmo os candidatos de seus respectivos partidos. A VEJA, Dilma negou que esteja em plena corrida eleitoral: "Querido, 
quem faz campanha  quem quer ser presidente. Eu sou (presidente). Por que vou fazer campanha?". A candidata que beija o Brasil tem as respostas na ponta da lngua. 


3#6 OS TENTCULOS DO MENSALO NO EXTERIOR
A Justia quebra o sigilo de contas e a polcia pede ajuda internacional para rastrear doao clandestina ao PT na campanha de 2002. O ex-presidente Lula ser intimado 
a depor.
RODRIGO RANGEL E HUGO MARQUES

     Em setembro do ano passado, o empresrio Marcos Valrio, o operador do mensalo, apresentou-se voluntariamente  Procuradoria-Geral da Repblica em Braslia 
e prestou um longo depoimento em que formalizava algumas revelaes acachapantes sobre o maior escndalo de corrupo da histria do pas. O julgamento do processo 
contra os mensaleiros, entre eles o prprio Valrio, estava em pleno curso no Supremo Tribunal Federal (STF). O empresrio queria proteo e um acordo de delao 
premiada. Entre as novidades. Valrio contou que o ex-presidente Lula no s tinha conhecimento do mensalo como avalizou as operaes financeiras clandestinas. 
Disse ainda que o dinheiro usado para subornar parlamentares tambm pagou despesas pessoais de Lula, inclusive quando ele j ocupava a cadeira de presidente da Repblica. 
O depoimento deu origem a vrias investigaes. Uma delas, envolvendo uma suposta doao ilegal de dinheiro ao PT, agora vai ganhar reforo internacional. 
     A Polcia Federal pediu ajuda para rastrear a movimentao de contas bancrias no exterior que, segundo o publicitrio Marcos Valrio, foram utilizadas pelo 
PT para receber doaes ilegais que bancaram despesas da campanha presidencial de 2002. Em seu depoimento, o operador do mensalo forneceu aos procuradores os nmeros 
de trs contas usadas para receber 7 milhes de dlares da Portugal Telecom, gigante do setor de telefonia que tinha negcios no Brasil e interesse em se aproximar 
do governo recm-empossado, Valrio disse que a doao foi acertada por Lula, Jos Dirceu e o ex-ministro Antonio Palocci, e que ele cuidou pessoalmente da operao 
em Lisboa. Para despistar eventuais curiosos, os depsitos teriam sido feitos por fornecedores da Portugal Telecom em Macau, um pedao minsculo de terra no sul 
da China colonizado pelos portugueses onde a influncia de Lisboa se faz presente at hoje. 
     Valrio afirmou que os 7 milhes de dlares depositados nas trs contas serviram para pagar dvidas contradas pelo PT na campanha que elegeu Lula. Essa parte 
do depoimento, cheia de detalhes sobre encontros no Brasil e no exterior entre os petistas e os dirigentes da empresa portuguesa, deu origem a uma investigao especfica 
 justamente uma das mais avanadas. A Polcia Federal e o Ministrio Pblico, como manda a regra em casos assim, fizeram o elementar: decidiram seguir o rastro 
do dinheiro. Primeiro, solicitaram  Justia autorizao para quebrar o sigilo das contas bancrias dos supostos beneficirios. Depois, a PF requereu ao Departamento 
de Recuperao de Ativos (DRCI), rgo ligado ao Ministrio da Justia, que acionasse os pases envolvidos para conseguir acesso s informaes sobre os titulares 
das contas, os saldos e detalhes da movimentao. Com isso, a polcia espera descobrir, primeiro, se a histria narrada por Valrio de fato  verdadeira. Se confirmada, 
passa-se  etapa seguinte: identificar os depositantes e os destinatrios finais do dinheiro. 
     Se, logo aps as declaraes de Marcos Valrio, Lula e os envolvidos trataram de menosprezar o potencial de estrago, agora o desenrolar do caso atemoriza o 
comando petista. No ms passado, coube ao prprio ex-presidente queixar-se a companheiros de partido, aps ser informado de que o ex-ministro Antonio Palocci, seu 
assessor direto at hoje, fora intimado a depor no caso. A reclamao chegou ao gabinete da presidente Dilma Rousseff, que acionou o ministro da Justia, Jos Eduardo 
Cardozo. Por sua vez, Cardozo incumbiu o comando da Polcia Federal, a ele subordinada, de averiguar as providncias adotadas pelos delegados encarregados dos inquritos 
abertos a partir das declaraes de Valrio. Iniciou-se, ento, uma fora-tarefa informal para mapear o andamento das investigaes. Os policiais incumbidos da empreitada 
 nem sempre fcil, j que alguns delegados mais refratrios a interferncia poltica resistem a dar informaes  souberam que a misso tivera origem numa queixa 
feita por Lula a Dilma. A VEJA, dois deles confirmaram o ocorrido. 
     Em breve, o prprio Lula dever receber uma intimao para prestar esclarecimentos ao Ministrio Pblico Eleitoral em Braslia, mas sobre outro episdio derivado 
das revelaes de Marcos Valrio: uma doao no declarada de 1 milho de reais feita pela Usiminas tambm  campanha presidencial de 2002. Em seu depoimento, Valrio 
contou que ele intermediou a doao da siderrgica, uma das maiores do pas. Como? Segundo o publicitrio, a Usiminas j era cliente de uma de suas agncias, a SMPB, 
havia mais de quinze anos e o ento presidente da companhia, Rinaldo Soares, "quis dar uma ajuda"  campanha de Lula. Acompanhado de um de seus scios, Cristiano 
Paz, Valrio foi a So Paulo para uma reunio com Delbio Soares, ento tesoureiro do PT, e Jos Dirceu, chefo da campanha que depois viraria homem forte do governo 
e ganharia o ttulo de chefe do mensalo. No encontro ficou combinado, de acordo com Valrio, que o dinheiro seria repassado ao partido atravs de uma triangulao, 
para ocultar o negcio: fornecedores da Usiminas fariam pagamentos diretos a fornecedores da campanha e a pessoas indicadas pelos dirigentes petistas atravs da 
SMPB. 
     Como Valrio aponta para a existncia de crime eleitoral, essa parte do depoimento est sob anlise da seo do Ministrio Pblico que investiga irregularidades 
em campanhas. O promotor eleitoral do Distrito Federal, Mauro Faria de Lima, j pediu informaes detalhadas das contas da campanha do presidente Lula em 2002, e 
confirmou que a doao de 1 milho de reais da Usiminas no aparece l. Alm de Lula, Valrio ser chamado a depor. A depender do desfecho do processo, Lula pode 
ser pessoalmente responsabilizado pelo crime eleitoral, cuja punio chega a cinco anos de priso mais multa. A suposta doao irregular da Usiminas no chega a 
ser propriamente uma novidade nos expedientes da companhia. Em 2007, a Comisso de Valores Mobilirios (CVM) determinou que fossem restitudos aos cofres da empresa 
1 milho de reais desviados para campanhas. Por coincidncia, as doaes tambm haviam sido feitas por intermdio de contratos de publicidade firmados com Marcos 
Valrio. Por coincidncia, a ordem para as  doaes partira do mesmo Rinaldo Soares, falecido em 2011. 
     Na semana passada, o processo do mensalo deu mais um pequeno passo em direo ao fim. O Supremo Tribunal Federal publicou o acrdo do julgamento dos embargos 
de declarao e, com isso, abriu a contagem de prazo para que os advogados apresentem seus derradeiros recursos. Os doze rus que tm direito aos chamados embargos 
infringentes tero trinta dias para apresent-los, na tentativa de reverter a condenao pelos crimes em que tiveram 4 votos a favor da absolvio. Aos outros treze 
condenados, resta apenas um ltimo expediente, destinado a esclarecer dvidas sobre o veredicto. O presidente do tribunal, ministro Joaquim Barbosa, afirmou que 
esse lote de recursos deve ser julgado ainda neste ms. Pela tradio do STF, para esses rus o processo deve ser dado por encerrado. Se assim for, condenados como 
Roberto Jefferson, o delator do esquema, e o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) podem ter a priso imediatamente decretada. 

SEGUINDO O DINHEIRO
Em depoimento  Procuradoria-Geral da Repblica, Marcos Valrio, o operador do mensalo, contou que uma parte dos recursos que abasteceram o esquema de corrupo 
foi depositada pela empresa Portugal Telecom em contas no exterior.
1-  Lula, Jos Dirceu e o ex-ministro Antonio Palocci acertaram um "emprstimo" de 7 milhes de dlares da Portugal Telecom ao PT
2- Marcos Valrio entregou aos portugueses os nmeros das contas bancrias que receberiam o dinheiro
3- O dinheiro foi depositado por fornecedores da Portugal Telecom em Macau, na China
4- A polcia quer rastrear o destino do dinheiro. O objetivo  saber se ele voltou para o Brasil  e quem, afinal, o recebeu.

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4# INTERACIONAL 

O OCASO DA RAINHA

Cristina Kirchner passa por uma cirurgia enquanto  abandonada por aliados polticos. Nada mais tpico dos regimes populistas.
NATHALIA WATKINS

     Por tomar decises sem consultar ningum e no permitir contestaes, a presidente argentina Cristina Kirchner foi apelidada pela oposio de "rainha". Apesar 
dos destemperos frequentes, seus vassalos lhe faziam a corte  espera de cargos na burocracia estatal, dinheiro para obras ou uma chance para sugar um pouco de sua 
popularidade. Esse reinado est com os dias contados. Cristina hoje tem pouco a oferecer aos seus camaradas. Os subsdios a empresas ineficientes de energia e transporte 
esvaziaram o cofre pblico e, com uma inflao de 25% e aumento da delinquncia, a desaprovao a seu governo est em quase 60%. O abandono da viva ficou evidente 
quando ela foi internada, na segunda-feira 7, para drenar um hematoma subdural no crnio. Do lado de fora do hospital Fundao Favaloro, onde foi operada, no havia 
muita gente. Pouqussimos jovens da organizao La Cmpora, que sempre se sentavam na primeira fileira durante os seus discursos, deram as caras. "O pacto era dar 
cumplicidade em troca de favores e obras pblicas", diz o cientista poltico argentino Srgio Berensztein, da consultoria Poliarqua. "Sem isso, os antigos aliados 
do governo, peronistas, s pensam em substitu-la." Candidatos cristinistas em campanha para as eleies legislativas do prximo dia 27 tambm sumiram. Semanas antes, 
eles j evitavam passar por Buenos Aires para no ser contaminados pela m onda da presidente. Nas eleies presidenciais agendadas para 2015, que ela est impedida 
de disputar pela Constituio, o isolamento deve crescer. Cristina no tem nenhum nome forte para indicar. 
     O cogulo entre a meninge e o crnio foi descoberto durante uma tomografia para investigar a origem de uma arritmia, que os mdicos afirmam ter sido controlada 
e no parece estar relacionada ao hematoma. No domingo, Cristina sentiu dores de cabea e um formigamento no brao, o que levou os mdicos a oper-la dois dias depois. 
A causa do hematoma e incerta. O candidato a deputado Martn Insaurralde disse que foi um acidente domstico no dia 12 de agosto. Ela teria tropeado e batido a 
cabea quando arrumava brinquedos do neto Nestor Ivan, filho de Mximo Kirchner. Mas Cristina tambm tem sofrido tropees frequentes por causa de presso baixa. 
Em um desses episdios, ela teria cado da escada do avio Tango 01. Uma foto dela a caminho do hospital alimentou ainda mais boatos sobre sua sade ao mostrar placas 
vermelhas em seu rosto. Jornais chapa-branca preferiram no utilizar a imagem. Entre as suspeitas, que foram de radioterapia a tratamento hormonal, falou-se de roscea, 
uma inflamao dermatolgica crnica, que no teria sido notada antes por causa da grossa camada de maquiagem. 
     Os doutores recomendaram repouso de trinta dias a Cristina. O vice-presidente, Amado Boudou, assumiu na segunda, mas j foi podado. "O vice lidera a equipe 
de trabalho, mas  a presidente Cristina quem toma as decises", disse o chefe de gabinete, Juan Manuel Abal Medina, na quarta 9. A rainha no permite que algum 
ganhe destaque em seu governo, e esse  outro motivo para que ela no tenha quem suceder-lhe. "Boudou  o vice-presidente com menos poder prprio da histria recente 
do pas", diz o cientista poltico argentino Jlio Burdman, da Universidade de Belgrano. Na semana passada, foram cancelados um ato de campanha e uma coletiva de 
imprensa com Boudou. Mas h razes mais prementes para escond-lo. De oito polticos analisados pela consultoria Management & Fit, ele  o que tem a maior rejeio: 
47%. Em segundo lugar vem Cristina, com 43%. Boudou  acusado de corrupo e trfico de influncia. Quando foi ministro da Economia, entre 2009 e 2011, levou o governo 
a escolher uma grfica privada para imprimir notas de 100 pesos. Em 2012, a ex-mulher do dono da grfica, Laura Muoz, denunciou que seu ex-marido era na realidade 
o testa de ferro de Boudou. Se isso se confirmar, ento o ministro da Economia mandou imprimir notas em sua prpria grfica.  fcil no gostar dele. Nas eleies 
legislativas do dia 27, estima-se que o grupo de Cristina no passe de 30% dos votos. Se em 2010 a morte de Nestor Kirchner ajudou na reeleio da presidente, desta 
vez o efeito da internao deve ser nulo.  o comeo do fim do reinado. 
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5# GERAL 

        5#1 GENTE
        5#2 PERFIL  A PEQUENA GRANDE MALALA
        5#3 NOBEL  O FIO DA NAVALHA
        5#4 GUSTAVO IOSCHPE  SEU VALOR  DETERMINADO POR SEU SALRIO?
        5#5 TECNOLOGIA  UMA AVENTURA ANALGICA
        5#6 TECNOLOGIA  DO ESPAO PARA AS MOS DOS AMADORES
        5#7 URBANISMO  DO POVO E PARA O POVO
        5#8 ESPORTE  A ARTE DE JOGAR A DOIS
        5#9 MEDICINA  MEMRIAS DA SALA DE CIRURGIA

5#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Marlia Leoni e Thas Botelho

BIG BEB A BOMBORDO
A apresentadora ANA HICKMANN  um gigante de vrias naturezas.  a artista com mais produtos licenciados no Brasil (um total de quase 700), tem o segundo maior faturamento 
do canal de TV onde trabalha e mira suas concorrentes bem de cima, com 1,85 metro de altura e, agora, 90 centmetros de largura. Com cinco meses de gestao e nome 
definido, Alexandre, o beb ter trs quartos, um no apartamento de Ana, outro em sua casa de campo e o terceiro no estdio. Sero comprados trs beros, trs carrinhos, 
trs trocadores... "Voltei de Paris agora e trouxe 32 quilos s de roupinhas para ele", diz a me. H catorze anos, ela vinha colecionando pecinhas infantis e acabou 
gerando outra empreendedora ideia: "Quero licenciar roupa de beb. Acho lindo filho que anda com a roupa combinando com a dos pais". 

CUS, QUE (ASTRO) FSICO!
Aos 49 anos e desafiando a lei que d nome a seu novo e peculiar sucesso, SANDRA BULLOCK atiou a curiosidade dos incautos. Como  possvel ela ter interpretado 
uma astronauta no filme Gravidade e no ter rolado nem um msero bson de Higgs com George Clooney, to disponvel e deslumbrante quanto ela? Sem contar dvidas 
mais etreas. "Por que o cabelo de Sandra no flutua nas cenas de gravidade zero?", indaga Neil Tyson, astrofsico conhecido pelos programas de popularizao cientfica. 
E mais: "Satlites costumam orbitar a Terra de oeste para leste. Por que, no filme, eles fazem a rota oposta?". Notaram a preocupao de Sandra? 

JUNTAS, MAS BEM ADMINISTRADAS
Quanto custa juntar duas arquiconcorrentes em um comercial? Resposta: 1,5 milho por famosa cabea. E uma arquiproduo para deix-las bem confortveis e bem alternadas, 
para otimizar o tempo valiosssimo das duas. IVETE SANGALO, 41, e CLAUDIA LHTIE, 33, gravaram a campanha de uma lmina de barbear numa praia da Bahia, acomodadas 
em elegantes bangals e com uma equipe de quinze pessoas cada uma. "Enquanto uma filmava, a outra fotografava. Elas se encontraram durante o almoo", diz o diretor 
Cludio Xavier. A escolha das cantoras baseou-se em uma pesquisa feita pela marca. Ivete apareceu como a celebridade mais popular e Claudia como a mais linda. "Quando 
nos encontramos  um carnaval, cantamos e falamos sobre filhos, pernas e beleza", mima Claudia. Assunto, certamente, no falta. 

DOOU POUCO, DOEU MUITO
Tem casamento que acaba bem e tem casamento que acaba mal, mas no existe casamento que acabe sem mgoa alguma. Para a apresentadora ANA MARIA BRAGA, 64, isso tudo 
ficou para trs. H cerca de um ms, ela est namorando MAURO BAYOUT, 52, um empresrio carioca que joga golfe  disputou at uma partida com Ronaldo  e trabalha 
na rea de desenvolvimento de softwares. Mas esse  o tipo de programa que roda mal para seu ex-marido. MARCELO FRISONI, 42. "Ele parece baixinho e gordinho. Se 
eu fosse mulher, no pegaria esse senhor, no", implica, com o cotovelo latejante de dor. Ana Maria, que tem tatuado o nome dele nas costas (e ele, o dela), no 
se detm sobre as razes do fim do casamento. J Frisoni faz uma autocrtica: "Fui um imbecil com ela. Deveria ter me doado mais". 


5#2 PERFIL  A PEQUENA GRANDE MALALA
A incrvel histria da menina paquistanesa que, para poder ir  escola, desafiou uma das mais cruis e violentas milcias do mundo, quase morreu por isso e agora 
lana a sua biografia.
THAS OYAMA

     Quando Malala Yousafzai nasceu, nenhum vizinho foi dar os parabns aos seus pais. Em regies do Paquisto como o Vale do Swat, onde ela vivia, s o nascimento 
de meninos  celebrado. Das meninas, espera-se apenas que vivam quietinhas atrs das cortinas, cozinhem e tenham filhos  preferencialmente antes dos 18 anos. "Malala" 
significa "tomada pela tristeza". Mas a primognita dos Yousafzai driblou duas vezes o destino: escapou da profecia do batismo e trocou as cortinas por onde deveria 
espreitar o mundo pelo centro do palco. Aos 12 anos, para poder continuar indo  escola, desafiou uma das mais cruis e violentas milcias em ao, o fundamentalista 
Talib. Aos 15, foi baleada na cabea numa tentativa do grupo de silenci-la. Malala sobreviveu ao atentado e, aos 16 anos, tornou-se porta-voz mundial de uma causa 
at h pouco quase obscura, entre outros motivos, por ter surgido em uma regio que j parecia ter problemas demais a tratar: os milhares de meninas no Afeganisto 
e no Paquisto que, graas a uma interpretao do Isl eivada de ignorncia e dio, so impedidas de ter acesso  educao e a um futuro melhor. Na quinta-feira, 
Malala recebeu o prmio Sakharov, dado pelo Parlamento Europeu. Na sexta, concorreu ao Nobel da Paz como a mais jovem indicada na existncia da premiao. O livro 
Eu Sou Malala (Companhia das Letras; 344 pginas; 34,50 reais, ou 24 reais na verso digital), a ser lanado no Brasil neste ms, conta como essa histria improvvel 
e extraordinria aconteceu. 
     Nele, Malala relata que cresceu em um lar barulhento, lotado de tios, primos e agregados. As crianas jogavam crquete no quintal, a me vivia na cozinha pilando 
aafro e o pai passava a maior parte do tempo fora de casa. Seria uma tradicional famlia paquistanesa, no fosse por um detalhe. Ziauddin Yousafzai, pai de Malala, 
 professor e viu na filha  curiosa e vivaz  sua aluna perfeita. Contrariando os hbitos locais, punha os meninos para dormir e deixava a garota ficar na sala, 
ouvindo-o falar de histria e poltica. Ziauddin estimulou Malala a gostar de fsica e literatura e a se indignar com as injustias do mundo  apresentadas a ela 
em toda a sua magnitude quando tinha 10 anos e o Talib fez do Vale do Swat seu territrio. Sob o governo paralelo da milcia fundamentalista, os homens foram obrigados 
a deixar a barba crescer, as mulheres que saam de casa desacompanhadas eram aoitadas na rua e as escolas femininas receberam ordens de fechar as portas  as que 
desobedeceram foram dinamitadas. 
     Malala, naquele tempo, estudava na escola da qual seu pai era dono e que, como as demais, teve de ser fechada. Seu ltimo dia de aula, em janeiro de 2010, foi 
registrado em um documentrio feito pelo New York Times. No filme, Malala afirmava que queria ser mdica e, para isso, iria continuar estudando "em casa, na escola 
ou em qualquer outro lugar". Em maio de 2010, embora o governo tivesse anunciado a expulso do Talib da regio, a milcia continuava rondando a rea. Malala, que 
j era conhecida por defender em entrevistas e palestras o direito das meninas  educao, passou a receber ameaas de morte. Quando elas atingiram o limite do insuportvel, 
Ziauddin props  filha "dar uma pausa na campanha e hibernar por um tempo". A menina indignou-se: "Como? No foi voc que disse que, se acreditamos em algo maior 
que nossa vida, ento nossa voz vai se multiplicar, mesmo que a morte chegue?". Em outubro de 2012, um talib disparou trs tiros contra a sua cabea dentro do nibus 
que a levava  escola. 
     O livro de Malala, escrito com a jornalista Christina Lamb,  tambm a histria do desaventurado Paquisto, nascido h 66 anos de uma sangrenta dissenso religiosa 
com a ndia britnica. Episdios como o assassinato da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto e a captura do terrorista Osama bin Laden so descritos pela tica ora 
ingnua ora divertida da adolescente (ainda que algumas vezes fique claro que Ziauddin no resistiu  tentao de contrabandear algumas de suas convices para o 
texto da filha). 
     Contra a peculiaridade das situaes vividas por Malala, est a universalidade de certas angstias adolescentes que ela relata  a comear pela mais imperiosa: 
ter um corpo em processo de transformao que se recusa a moldar-se conforme os seus desejos. Malala se achava baixinha e toda noite pedia a Al que lhe concedesse 
alguns centmetros a mais. No foi atendida em suas preces  estacionou no 1,50 metro , mas parecia gigante quando, em julho, discursou na sede da ONU, do alto 
da tribuna que j foi ocupada por quase todos os grandes lderes mundiais da atualidade. Enquanto o Ocidente a aplaudia, porm, seu pas silenciava. Os insultos 
chegaram pela internet. Malala, escreveram compatriotas, estaria sendo usada para denegrir a imagem do Paquisto, seria obcecada pela fama e teria feito o que fez 
apenas para conseguir "uma vida de luxo no exterior". 
     A contar pelo que diz no livro, a adolescente no tem achado a vida na Inglaterra propriamente um deleite. Ela vive com a famlia na cidade de Birmingham, para 
onde foi levada depois do atentado para se submeter a cirurgias. Diz ter saudade do Paquisto e lamenta a solido da me, que no fala ingls. Ela mesma, embora 
v  escola e domine a lngua, diz ter feito poucas amizades no pas.  Moniba, a melhor amiga com quem sempre fala pelo Skype, conta que na Inglaterra "as mulheres 
se vestem como querem e tm empregos como policiais e guardas de segurana" e que "o governo  responsvel e ningum precisa saber o nome do chefe do Exrcito". 
     Na semana passada, o Talib anunciou que no desistiu de assassinar Malala. "Se tivermos uma nova chance, definitivamente a mataremos e ficaremos orgulhosos 
disso", declarou  CNN o porta-voz do grupo paquistans, Shahidullah Shahid. Dois dias depois, em uma entrevista ao mesmo canal, a adolescente contou que havia mudado 
de ideia a respeito da profisso a seguir. No quer mais ser mdica, mas poltica. E sonha em um dia ser eleita primeira-ministra do Paquisto. "Assim, posso colocar 
mais dinheiro do oramento em educao", afirmou. 
     A histria  movida tambm por indivduos. E, embora os deterministas discordem, a trajetria da humanidade mostra que, em certas sociedades, em determinados 
momentos, a ao de uma nica pessoa pode se tornar uma fora to poderosa que ela, sozinha, consegue mudar o rumo das coisas, tornando aquela sociedade melhor ou 
mais justa. Ao autor desse tipo de faanha d-se o nome de heri. O dia em que todas as meninas muulmanas podero ir  escola sem medo ainda parece distante. Mas 
ele ficou mais prximo graas a Malala. Os vizinhos dos Yousafzai perderam a chance de ser os primeiros a cumprimentar, dezesseis anos atrs, essa herona. 

A CHEGADA DO TALIB
"Eu tinha 10 anos quando o Talib veio para o vale (...). No se pareciam com os talibs afegos que tnhamos visto em fotografias, com turbantes e rmel nos clios. 
Eram homens de aparncia esquisita, com barba e cabelos compridos e desgrenhados, com roupas de camuflagem sobre os shalwar-kamiz que usavam com calas acima dos 
tornozelos. Usavam sapatos de corrida ou sandlias baratas de plstico, e alguns tinham meias na cabea com buracos na altura dos olhos e o nariz  escondido por 
trs do turbante. Usavam tambm distintivos pretos em que se lia Shariat ya Shahadat, isto , lei islmica ou martrio.

UM MEGAFONE PARA O MUNDO
"A ideia original para o documentrio era seguir meu pai no ltimo dia da escola. No fim do encontro, Irfan me perguntou: 'O que voc faria se um dia no pudesse 
voltar ao vale e  escola?'. Respondi que isso no aconteceria, mas ele insistiu e comecei a soluar. (...) Meu pai sabia que aquele poderia ser nosso megafone para 
o mundo. Um amigo lhe dissera que um documentrio causaria mais impacto do que ficar andando de um lado para outro."

ESCOLAS AO CHO
"Em fins de 2008, cerca de 400 escolas haviam sido destrudas pelo Talib. Tnhamos um novo governo, sob a direo do presidente Asif Zardari, vivo de Benazir, 
mas ele parecia no se importar com o Swat. Comentei que as coisas seriam diferentes se suas filhas estudassem no vale. Havia homens-bomba em todo o pas: at o 
hotel Marriott, em Islamabad, foi atingido por uma exploso." 

O ATENTADO 
"No vi quando os dois rapazes com lenos amarrados no rosto saram para a estrada e fizeram o nibus parar de repente. No tive chance de responder  pergunta deles: 
'Quem  Malala?'. Seno, eu lhes teria explicado porque eles deviam nos deixar ir  escola  ns, suas irms e suas filhas. A ltima coisa de que me lembro foi pensar 
na reviso que precisava fazer para o exame do dia seguinte. O som na minha cabea no foi o barulho dos trs tiros, mas o corta, corta, corta, pinga, pinga, pinga 
do aougueiro decapitando as galinhas, e a imagem das pequenas poas de onde saam pequenos filetes de sangue vermelho." 

O EXLIO NA INGLATERRA
"Quando eu voltava da escola, em Mingora, sempre encontrava a casa cheia; agora, no consigo acreditar que costumava pedir um dia de paz e alguma privacidade para 
fazer a minha lio de casa. Fico sozinha, sentada no quarto, montando quebra-cabeas e ansiando por visitas (...) Sei que a minha me se sente sozinha. Ela  muito 
socivel  todas as mulheres da vizinhana costumavam se reunir,  tarde, em nossa varanda dos fundos, e mulheres que trabalhavam em outras casas vinham descansar. 
Aqui, est sempre ao telefone, falando com algum do Paquisto. Para ela, viver aqui  difcil, pois no fala ingls." 

APLAUDIDA NA ONU
"Passei meu aniversrio de 16 anos em Nova York, onde falei nas Naes Unidas. Ficar de p ali e me dirigir a uma audincia naquele enorme salo, no qual tantos 
lderes mundiais j discursaram, foi assustador, mas eu sabia o que queria falar. 'Esta  a sua chance, Malala', disse a mim mesma (...) Queria atingir as pessoas 
que vivem na misria, as crianas foradas a trabalhar e aquelas que sofrem com o terrorismo e a falta de educao. No fundo do meu corao, eu esperava alcanar 
toda criana que pudesse ganhar coragem com as minhas palavras e se levantar por seus direitos." 

COM REPORTAGEM DE TATIANA GIANINI


5#3 NOBEL  O FIO DA NAVALHA
     O escritor Ernest Hemingway, conta Arthur Clarke, foi desafiado por amigos em uma mesa de restaurante em Nova York a escrever uma histria comovente com apenas 
dez palavras. Ele precisou de apenas seis. "For sale: baby shoes. Never worn " ("Vendo: sapatinhos de beb. Nunca usados"). O frade franciscano abaixo, Guilherme 
de Ockham, ingls do sculo XIII, veria sua famosa "navalha" em ao na prodigiosa capacidade de sntese de Hemingway. Disse Ockham: "Se as vrias explicaes de 
um fenmeno em tudo o mais forem idnticas, a mais simples  a melhor". A apresentao dos vencedores do Nobel nas prximas pginas homenageia Guilherme de Ockham 
e foi inspirada no livro 30-Second Theories, dos ingleses Paul Parsons e Peter Bridgewater.

FSICA
COMO O ELO MAIS FRACO SE TORNOU O MAIS FORTE
EM RESUMO
Parte da energia liberada pela exploso primordial do universo, o Big Bang, nunca teria virado matria sem que algo freasse sua expanso. Peter Higgs e Franois 
Englert explicaram que freio foi esse e ganharam o Nobel de Fsica de 2013.
A TEORIA
Comecemos com a equao mais conhecida de todas: E = mc2, do gnio Albert Einstein. E  energia, m  massa e c2  a velocidade da luz ao quadrado. A equao estabelece 
a relao profunda entre massa e energia. Logo depois do Big Bang, E, energia, era infinita e m, massa, zero. Mas ento o universo comeou a esfriar e parte de E 
se transformou em m, dando origem a tudo o que podemos ou gostaramos de tocar: galxias, estrelas, planetas, gatos e Gisele Bndchen. Quem operou esse milagre foi 
uma partcula subatmica, um bson, que recebeu o nome de seu mais famoso terico, Higgs. Os fsicos chamam de bsons as partculas que induzem determinados fenmenos. 
O fton  um bson. Sem ele, no haveria a luz. Sem o bson de Higgs, no haveria o universo como o conhecemos. Existiria um espao infinito preenchido por energia 
infinita e sem testemunhas. O bson de Higgs foi o responsvel por produzir uma rea viscosa que atrasou a expanso do universo logo depois do Big Bang. Essa regio 
 o campo de Higgs. Foi nele que parte de E se atolou e na desacelerao liberou quarks e glons que deram m aos prtons, garantindo assim a existncia de matria 
no universo. O prton  um dos componentes do ncleo de todos os tomos. Essa relao profunda entre energia e massa foi violentamente demonstrada na detonao de 
bombas atmicas.
UMA REFLEXO
O famoso ditado confirmado pelo senso comum diz que "uma corrente  to forte quanto seu elo mais fraco". Assim tambm  o Modelo Padro, o sistema de organizao 
do mundo subatmico que foi montado por mais de um sculo por geraes de fsicos tericos e de laboratrio. O bson de Higgs era o elo mais fraco do Modelo Padro. 
Ele foi teorizado por Peter Higgs e Franois Englert, mas uma prova experimental de sua existncia teimava em no aparecer nos testes. Foi assim at o ano passado, 
quando os fsicos experimentais do Cern, em Genebra, chamaram a imprensa do mundo inteiro para anunciar que, finalmente, o bson de Higgs tinha sido detectado ao 
cabo de uma experincia portentosa. Os fsicos do Cern usaram magnetos do tamanho de um Boeing para acelerar feixes de prtons, um dos componentes do ncleo dos 
tomos, em tubos subterrneos que formam um imenso crculo de quase 30 quilmetros de extenso. Os feixes so acelerados em sentidos opostos dentro dos tubos selados 
a vcuo e, quando chegam perto da velocidade da luz, os cientistas mexem alguns comandos e BAM!!!  eles se chocam de frente. Nesse momento mgico, cada tipo de 
energia liberada pela dilacerao instantnea dos prtons nos choques dentro dos tneis deixa um rastro nico, uma assinatura, em placas sensveis dos detectores 
do Cern. Foi nelas que o bson deixou sinais de sua existncia no ano passado. Com a descoberta experimental do bson de Higgs, os cientistas ganharam a certeza 
de que esto corretas suas elucubraes tericas sobre a origem do cosmo e a estrutura ntima da matria. Caso encerrado? No. Longe disso. Falta a ma, aquela 
mesma que despencou da rvore diante dos olhos de sir Isaac Newton no distante sculo XVII. Falta explicar a gravidade e a relao dela com as outras foras da natureza. 
Graas a Higgs, Englert e ao Cern, cujos cientistas tambm vo ganhar o Nobel um dia, desvendamos os segredos do universo observvel.  muito. Mas tambm  quase 
nada. , exatamente, um naco de 4%. Os restantes 96% do universo so formados de energia escura (73%) e matria escura (23%). O "bson" da gravidade, o grviton, 
se existir, se esconde ali. Essa  a nova fronteira da cincia. 
PETER HIGGS teorizou, os fsicos de laboratrio confirmaram suas ideias e ele conquistou o Nobel. Os experimentalistas tambm vo ganhar o prmio.


QUMICA
VER PARA CRER, E CLARO, REVOLUCIONAR
EM RESUMO
As reaes qumicas subatmicas ocorrem a uma velocidade prxima  da luz. Os qumicos Martin Karplus, austraco, e Arieh Warshel, israelense, com o biofsico ingls 
Michael Levitt ganharam o Nobel de Qumica pela criao de programas de computador que permitem simular esses processos em ao.
A TEORIA
Antes de Karplus, Warshel e Levitt, os qumicos tinham de optar. Se usassem os clculos da fsica clssica, conseguiriam visualizar a estrutura das molculas, mas 
no as reaes subatmicas. Se recorressem  fsica quntica, visualizariam apenas os processos subatmicos, mas no os estruturais. Ainda assim, s em molculas 
muito pequenas. Os vencedores do Nobel criaram programas que permitem aos qumicos visualizar ao mesmo tempo os dois tipos de processo, tanto os que se passam no 
ncleo atmico quanto os externos.
UMA REFLEXO
Ns, seres humanos, somos racionais, e isso nos separa do resto do reino animal. Mas nossa razo e emoo funcionam melhor quando suas interaes com o mundo exterior 
so mediadas pela viso. Ver para crer, diz o ditado popular de raiz bblica. Em seus famosos Gedankenexperimenten, Albert Einstein, sempre ele, demolia as teses 
rivais propondo que os colegas visualizassem a essncia das propostas. Einstein atribua o sucesso popular da sua teoria da relatividade  facilidade com que seus 
preceitos essenciais podiam ser visualizados. O exemplo mais famoso  o da pessoa que, dentro de um submarino sem escotilhas, totalmente silencioso e de movimento 
suave, no tem como saber se est navegando ou parada. Com essa imagem, Einstein mostrou com simplicidade que o movimento  "relativo"  ou seja, um objeto se move 
em relao a outro ou a um ponto de referncia. Portanto, o tempo tambm  relativo. Os qumicos no escapam dessa dependncia da viso para entender os processos 
de interao entre as molculas, os tomos e as partculas menores do que o tomo. A forma de uma molcula pode ser mais definidora de suas propriedades do que sua 
composio. Basta lembrar que o diamante, material com a superfcie mais dura encontrado na natureza, tem a mesma composio do grafite. Ambos so feitos de carbono. 
A diferena abissal entre eles  dada pela forma da molcula. A simples mudana no formato de uma molcula pode tambm transformar uma substncia altamente txica 
em um composto milagroso para a medicina. Foi por satisfazer, no campo da qumica, a obsesso humana por visualizaras coisas que Karplus, Warshel e Levitt ganharam 
o Nobel.
LABORATRIO VIRTUAL
os ganhadores do Nobel de Qumica desenvolveram programas de computador para facilitar o estudo de reaes complexas e a elaborao de novas drogas.


MEDICINA
A EMBALAGEM E O RTULO
EM RESUMO
O Nobel de Medicina foi dividido entre trs pesquisadores que desvendaram, no nvel gentico, o processo pelo qual substncias vitais sintetizadas pelas clulas 
humanas so transportadas pelo organismo e entregues exatamente onde elas so necessrias.
A TEORIA
Cada uma dos cerca de 10 trilhes de clulas que compem o organismo humano funciona como uma fbrica de compostos bioqumicos. So hormnios, neurotransmissores, 
enzimas que precisam sair das clulas onde so produzidos e entregues a rgos do corpo. A logstica de distribuio dessas substncias  orquestrada e executada 
por protenas sintetizadas por no mnimo trs grupos de genes. So eles que coordenam o vital processo de embalagem das substncias em bolsas feitas de protenas 
e gorduras que, alm de proteger o contedo no trajeto, contm na superfcie toda a informao necessria sobre o destinatrio e o momento exato da entrega.
UMA REFLEXO
Randy Schekman, da Universidade da Califrnia, James Rothman, de Yale, e Thomas Sdhof, de Stanford, adiantaram os estudos de doenas provocadas pela falta de determinadas 
substncias na hora e no lugar onde elas so necessrias. Em qualquer momento, milhares de substncias esto em movimento nos diversos canais de distribuio do 
corpo. Elas trafegam principalmente pelas artrias e veias e pelos vasos linfticos. Certas doenas ocorrem quando as substncias no chegam nem ao lugar exato nem 
na hora exata  ou, quando chegam, no podem ser absorvidas pelas clulas, muitas vezes por um problema de identificao. O diabetes pode ser causado pela interrupo 
da secreo de insulina por certas clulas do pncreas, mas tambm pela dificuldade ou incapacidade de outras clulas do corpo de usar a substncia. A doena de 
Parkinson ocorre no crebro por disfunes semelhantes na produo, transporte e uso de outra substncia, a dopamina. Entender e melhorar esses processos valeu um 
Nobel, e  s o comeo de uma revoluo. 

LITERATURA
EM BUSCA DO MOMENTO EXPLOSIVO
Em 2008, Horace Engdahl, ento secretrio da Academia Sueca, instituio que confere o Nobel aos escritores, criticou a literatura americana por ser "insular". Naquele 
ano, ganhou J.M.G. Le Clzio, um francs "multicultural". O Nobel de Literatura para Alice Munro, 82 anos,  uma virada. Ela no  americana, e sim canadense ( 
a primeira vez que um escritor do Canad recebe a lurea  descontado Saul Bellow, naturalizado americano). Mas  uma autora "insular", devotada a um universo bem 
delimitado: as reas rurais do Canad, com seus "rios largos e pequenas cidades", como definiu o atual secretrio da academia, Peter Englund. No h nada de estreito 
no modo como ela explora esse mundo. Com sua narrativa s na aparncia delicada, Alice mergulha fundo nas frustraes e mesquinharias de seus personagens, sobretudo 
das mulheres.  uma cultora exclusiva do conto  tem quatro coletneas publicadas no Brasil  e certa vez disse no entender bem o romance, gnero ao qual faltaria 
"tenso". "Eu procuro um momento explosivo e reno tudo em torno dele", disse. Eis a uma definio eficiente da difcil arte do conto.
FORMA BREVE, ARTE VASTA
Alice Munro: mestra do conto, a escritora canadense explora os dramas de personagens imersos em pequenas cidades rurais de seu pas.

PAZ
UMA AMEAA NEUTRALIZADA
Destruir o maior arsenal qumico do mundo em meio  guerra civil na Sria ainda parece uma meta impossvel. Ao conceder o Prmio Nobel da Paz  Organizao para 
a Proibio das Armas Qumicas (Opaq). a academia sueca celebrou o trabalho em andamento, mas tambm as conquistas do passado recente. Criada em 1997, a organizao 
j realizou mais de 5200 inspees em 86 pases e fiscalizou a destruio de 82% das armas qumicas declaradas. Os galpes qumicos da ndia, Albnia e Coreia do 
Sul foram eliminados, alm de grande parte do arsenal americano, russo e lbio. A Sria  o primeiro caso em que a Opaq atua antes do cessar-fogo. Em agosto, atiradores 
no identificados abriram fogo contra o comboio dos funcionrios que investigavam um ataque nos arredores da capital, Damasco. Uma exploso levou pelos ares o local 
onde os inspetores atuariam. No houve feridos. A lurea para a Opaq , a rigor, uma carta de intenes. 


5#4 GUSTAVO IOSCHPE  SEU VALOR  DETERMINADO POR SEU SALRIO?
     Voc acha que os mdicos brasileiros ganham bem? Eles tm os maiores salrios mdios do pas. Pois saiba que um mdico americano ganha quatro vezes mais. Eu 
j ouvi muitos argumentos para explicar como melhorar o quadro da sade brasileira. Inclusive do pessoal que diz que faltam verbas para o setor e que a soluo  
investir mais, ressuscitar a CPMF, entre outras. Mas no me recordo de ter ouvido algum sugerindo que o problema era o salrio dos mdicos. Nem, muito menos, que 
as diferenas entre o sistema de sade brasileiro e o americano se explicam pelo fato de que os nossos mdicos ganham quatro vezes menos do que seus colegas americanos. 
     E os nossos dentistas?  a segunda carreira mais bem remunerada do pas. No sou especialista no setor, mas acho que esto fazendo um bom trabalho: o sorriso 
dos brasileiros  bem mais arrumado do que o de habitantes de outros pases em desenvolvimento, como, por exemplo, os chineses, e at de pases ricos, como os ingleses. 
Mas, veja  s, coitados! Ganham 5,4 vezes menos do que os dentistas americanos, que levam para casa, anualmente, o equivalente a 346.000 reais, contra 64.000 reais 
dos brasileiros. 
     E os advogados brasileiros? Como mostra a fbrica de pizzas que sai do nosso Judicirio, certamente devem estar entre os melhores do mundo. Mas, mordam-se de 
inveja: os advogados americanos ganham 4,4 vezes mais. De novo, j li muitas anlises sobre o que precisa ser feito para melhorar nosso sistema legal, mas no me 
recordo de nenhum protesto da OAB sugerindo que nossas deficincias se explicam pela distncia entre o salrio dos nossos causdicos e seus congneres do Hemisfrio 
Norte. 
     O que dizer ento de nossos artistas? Sinceramente, acho-os melhores do que os americanos, especialmente na msica. Como explicar ento que ganhem quase quatro 
vezes menos do que os compatriotas de Madonna? E nossos profissionais de marketing e propaganda, que todos os anos levam uma enxurrada de lees em Cannes e criam 
promoes e eventos to criativos? Quantos Washington Olivetto e Nizan Guanaes os americanos produziram? Quantos Rock in Rio e carnavais? Nenhum. Mas   destino 
cruel  nossos profissionais de marketing e propaganda recebem 3,5 vezes menos que seus concorrentes americanos. No 3,5% menos, nem 35% menos: 3,5 vezes menos. 
E, por mais criativos e originais que sejam nossos publicitrios, ainda no vi nenhum deles sugerir que, se ganhassem 3,5 vezes mais, seriam ainda mais espetaculares. 
     Essas diferenas so praticamente iguais para qualquer profisso de nvel superior que voc queira comparar  os dados de vinte delas esto disponveis em twitter.com/gioschpe
. Na mdia dessas profisses, os americanos ganham 3,55 vezes mais que os brasileiros. Se retirarmos engenheiros e arquitetos da conta, a relao vai a 3,76. Entre 
essas carreiras, est a dos profissionais da educao. Os americanos ganham 3,97 vezes mais do que os brasileiros. Ou seja, a diferena entre professores brasileiros 
e americanos est bastante em linha com a observada em todas as demais profisses. Se voc acha que o professor brasileiro ganha pouco, deveria notar que ganha pouco 
por ser brasileiro, no por ser professor. 
     Essa diferena existe porque os pases tm nvel muito desigual de renda mdia, o PIB per capita. O americano  quatro vezes maior do que o brasileiro. Ento 
 normal e esperado que, em todas as carreiras, haja uma diferena dessa magnitude entre um profissional brasileiro e outro americano. Isso no  prerrogativa dos 
EUA. Usei este pas pela facilidade de obteno de dados. Pegue a mdia dos pases desenvolvidos e ver que a diferena  a mesma. Pegue a mdia dos pases da frica 
Subsaariana e ver que a diferena tambm ser a mesma, apenas com o sinal trocado. Isso  bvio. Por isso  que sempre me causa surpresa quando algum pega um dado 
de gasto nominal em educao e diz assim: Precisamos investir mais em educao se quisermos ter qualidade de Primeiro Mundo. Enquanto o gasto mdio por aluno dos 
pases da OCDE for de 8893 dlares e o do Brasil for de 2849 dlares, no poderemos esperar que a qualidade seja comparvel''. Que professores e sindicalistas repitam 
esse mantra, at entendo. Como disse Upton Sinclair: " difcil conseguir que uma pessoa entenda algo quando o seu salrio depende de que no entenda". Mas ouvir 
isso de gente inteligente e bem-intencionada  apenas um sinal de que o discurso das corporaes dos professores abalou o discernimento mesmo das melhores mentes. 
Quase quatro quintos (78%) do gasto com educao no Brasil so destinados a pagar salrios de professores e funcionrios. Para que o Brasil gaste, em termos nominais, 
o mesmo que um pas desenvolvido, seria necessrio que os profissionais da educao ganhassem o mesmo que seus pares de pases desenvolvidos. Seriam, ento, a nica 
categoria profissional com remunerao nesse patamar, em um pas em que as demais profisses ganham quatro vezes menos. 
     Essa no  uma questo menor.  em virtude dessa incompreenso sobre gastos diferentes para realidades diferentes que o Brasil j comprometeu os ganhos do pr-sal 
em um sistema educacional fracassado, e agora caminha para queimar mais incrveis 5% do PIB ao aumentar os investimentos em educao de 5% para 10% do PIB. Voc, 
eu e a gerao de nossos filhos pagaremos caro por esse populismo. Quem defende aumento de remunerao sem esperar nenhuma contrapartida em termos da qualidade do 
servio est subvertendo uma das leis basilares da economia: a que estabelece que remuneraes so proporcionais  produtividade do trabalhador. Americanos e europeus 
no ganham quatro ou cinco vezes mais do que ns porque seus patres so bonzinhos, mas porque  isso que produzem. Basta ver os dados da Organizao Internacional 
do Trabalho: o trabalhador brasileiro produz, por hora trabalhada, um quinto do que produz o americano. Se usarmos o critrio de produtividade e renda nominal para 
balizar a remunerao dos nossos profissionais da educao, a concluso inescapvel  que o professor brasileiro ganha demais em relao ao que entrega. No ltimo 
Pisa, o teste de qualidade educacional mais respeitado do mundo, a educao brasileira ficou em 53 lugar. Na sua vizinhana no estavam os pases de Primeiro Mundo, 
mas sim Colmbia, Trinidad e Tobago. Montenegro e Jordnia. 
     Mesmo que fosse financeiramente factvel, o que no , a educao no Brasil no melhoraria se os professores passassem a ganhar o mesmo que os de pases desenvolvidos. 
Dezenas de estudos acadmicos mostram que no h correlao entre o salrio dos professores e o aprendizado dos alunos. Qualquer gestor acharia absurdo dar aumento 
significativo a funcionrios que esto entregando pssimos resultados. Est na hora de aplicar a mesma lgica  rea da educao. O que efetivamente importa  a 
formao de professores, capacitao de gestores, currculo nacional unificado, dever de casa, avaliao, melhoria do material didtico, uso efetivo do tempo de 
sala de aula e tudo o mais que os pases que deram certo fizeram antes de poder pagar salrios mais altos. Salrio no cai do cu: conquista-se.
GUSTAVO IOSCHPE  economista


5#5 TECNOLOGIA  UMA AVENTURA ANALGICA
Jovens que nem eram nascidos na era de ouro da Polaroid ressuscitam a foto instantnea em papel e, claro, exibem o resultado na internet.
HELENA BORGES

     A mquina, grande e desajeitada, era inconfundvel. A ao tambm: focalizar, clicar, ouvir o barulhinho do papel saindo da mquina e sacudir, sacudir, sacudir 
at, como por milagre, a imagem aparecer. Estava pronta a foto da Polaroid, a cmera de revelao instantnea que todo mundo queria ter nos tempos em que fotografia 
e papel eram indissociveis. Dada como morta e enterrada em 2001, com a popularizao dos modelos digitais, a velha cmera ganhou flego inesperado, empunhada por 
jovens que nem nascidos eram nos ureos tempos da Polaroid. O movimento comeou na Europa e nos Estados Unidos trs anos atrs, depois que ex-engenheiros da empresa 
conseguiram recompor a frmula de fabricao do filme instantneo e o relanaram no mercado. Agora se dissemina  no Brasil entre os jovens, que redescobrem o prazer 
de clicar e revelar com a prpria Polaroid  tanto os novos modelos, lanados em 2012, que s podem ser comprados fora, quanto os antigos, encontrados em antiqurios 
ou na internet  e com a Instax, da Fujifilm, a nica do gnero vendida diretamente no pas. 
     Nos novos tempos, como no podia deixar de ser, faz parte da brincadeira fotografar a foto e compartilh-la em redes sociais como Twitter e Instagram. Algumas 
cmeras at j permitem fazer tudo ao estilo digital, eliminando a parte do papel, mas ningum quer. A graa  preservar aquela moldurinha com ar de relquia. S 
mesmo um olhar mais treinado pode distingui-la da do prprio Instagram, que, alis, tem uma Polaroid como smbolo e veio reavivar na rede um hbito comum no mundo 
analgico: mostrar a foto ao amigo. Foi pela trilha da internet que a paulista Milla Oliveira, 28 anos, voltou ao passado. "Nunca tive uma Polaroid, mas meus pais 
guardavam algumas dessas fotos em casa", diz ela, que ganhou do marido uma Instax e ps-se a montar um painel com fotografias de cima a baixo. "O ressurgimento da 
Polaroid faz parte da moda vintage, que valoriza e v o objeto antigo como algo mais autntico", observa a antroploga Lgia Krs. 
     Parte dos novos modelos de revelao instantnea permite ver e editar a imagem antes de imprimi-la, mas a nitidez da foto no papel no se equipara  das boas 
cmeras modernas. Tambm a comodidade no  a mesma: a bateria no dura mais do que 25 impresses e o filme (de 2 a 6 reais por foto), em certos casos, deve ir  
geladeira e ser resgatado de l uma hora antes do primeiro clique. Ainda assim, os filmes de hoje esto vrios degraus acima dos antecessores: as cores no mais 
desbotam rapidamente e acabou aquela histria de tampar o papel que sai da mquina (a luz, naquele momento, transformava a foto em um borro preto). Para os aficionados, 
a maior expectativa  o lanamento, prometido para o incio de 2014, da Socialmatic, considerada a Polaroid do Instagram: uma cmera fina como um celular, equipada 
com os filtros do aplicativo e dotada de um dispositivo de impresso instantnea. Dever custar 300 dlares  os modelos atuais oscilam entre 70 e 250 dlares. 
     Saudosista digno desse nome, porm, sonha mesmo  com as imperfeies da Polaroid original, algo que se procura manter na fbrica em Enschede, na Holanda. Em 
2008, quando as antigas bases da Polaroid estavam todas desativadas, esta ainda vivia de se desfazer do velho estoque de filmes. Foi quando os ex-engenheiros arrendaram 
o prdio com a ideia de voltar  produo. Todo mundo dizia: "Vocs so loucos. Vo falir". E assim nascia The Impossible Project, que fabrica hoje os modelos mais 
retr, alm de reparar e vender verses antigas que garimpam em brechs no mundo inteiro. A iniciativa fez tambm a empresa que comprou a marca Polaroid em 2008, 
desde ento produzindo s culos e cmeras digitais, relanar os modelos mais modernos da nova safra. "Atramos jovens que esto em busca de uma aventura analgica", 
resume Florian Kaps, fundador do The Impossible Project. Ateno, Remington e Olivetti: quem sabe a mquina de escrever no volta  cena? 

A NOVA VELHA CMERA
As principais diferenas entre uma Polaroid dos anos 80 e a atual
DISTNCIA PARA UM BOM FOCO
Antes: de 1,2 a 2,5 metros
Hoje (dados do modelo Z340E): A partir de 10 centmetros

TEMPO PARA A REVELAO
Antes: 90 segundos
Hoje (dados do modelo Z340E): 45 segundos

FILME
Antes: desbotava rapidamente no contato com a luz
Hoje (dados do modelo Z340E): resistente a gua, toque e luz.


5#6 TECNOLOGIA  DO ESPAO PARA AS MOS DOS AMADORES
A lendria Hasselblad, a cmera da Nasa, em verses para (quase) qualquer mortal.

     Nome pronunciado com reverncia no mundo da fotografia profissional, Hasselblad  a marca sueca de cmeras que evoca preciso, qualidade e infalibilidade. Em 
meados do sculo passado, a lenda criada em torno dela por fotgrafos de moda ganhou popularidade com o anncio de que a Nasa, a agncia espacial americana, escolhera 
a Hasselblad como nica fornecedora de equipamentos pticos para suas misses espaciais tripuladas  Lua. Foi com modelos Hasselblad que, em 1969, Neil Armstrong, 
o primeiro homem a pisar na Lua, registrou as andanas de seu colega, Buzz Aldrin, na superfcie empoeirada do satlite natural da Terra. Empolgado, Armstrong gastou 
todo o estoque de filmes e, quando chegou a vez de Aldrin fotograf-lo, as Hasselblad se mostraram inteis. Resultado: existem centenas de fotos de Aldrin na Lua, 
mas a nica de Armstrong  seu reflexo no vidro dourado do capacete do traje pressurizado do companheiro. Foi para diminuir o peso na viagem de volta, e no por 
raiva, que Armstrong deixou para trs na superfcie lunar treze cmeras Hasselblad.  
     No por outra razo a Hasselblad deu o nome de Lunar a uma de suas linhas de cmeras amadoras que decidiu lanar na Europa, no Japo e nos Estados Unidos. A 
Lunar tem a caracterstica bsica que levou a Nasa a escolher a marca sueca para equipar suas naves, um mecanismo interno sem espelho, o que diminui consideravelmente 
o nmero de peas mveis e, consequentemente, os problemas de funcionamento em condies extremas. A diferena fundamental entre as duas geraes de cmeras , claro, 
o fato de os modelos que foram ao espao no projeto Apollo usarem filmes de celuloide. Os modelos atuais so digitais. As cmeras da linha Lunar tm lentes intercambiveis 
e design italiano. A produo  limitada a 1000 cmeras por ano e o preo comea em 5000 euros (15.000 reais). Os modelos Stellar, mais simples, do tipo "aponte 
e clique", custam cerca de 1500 euros (4500 reais). So preos bem mais altos que os de modelos semelhantes disponveis no mercado. Mas ningum duvida que a lenda 
Hasselblad vai motivar muitos fotgrafos amadores a entrar na fila por uma cmera da marca. A outra opo  dar um pulo at a Lua e pegar uma das Hasselblad deixadas 
l por Neil Armstrong. 


5#7 URBANISMO  DO POVO E PARA O POVO
De uma reunio de moradores de bairro nasceu em Nova York o parque High Line, um dos projetos urbansticos mais admirados da atualidade.
MARCELO SAKATE

     A democracia americana nasceu de baixo para cima, observou, no sculo XVIII, o historiador e pensador francs Alexis de Tocqueville. Em contraposio ao absolutismo 
europeu, os colonos da Nova Inglaterra decidiam, com grande autonomia, os rumos das comunidades fundadas por eles no Novo Mundo. De baixo para cima nasceu tambm 
o parque suspenso High Line, um dos pontos mais visitados e admirados de Nova York. Em 1999, moradores do Chelsea foram convidados a participar de uma reunio a 
respeito do futuro de uma linha de trem suspensa e desativada havia alguns anos. O destino mais provvel seria a demolio. Dois moradores da vizinhana, no entanto, 
imaginaram um futuro diferente para a linha frrea: transform-la em um parque suspenso. 
     Joshua David, jornalista, e Robert Hammond, que trabalhava em uma startup de tecnologia, conheceram-se na reunio comunitria e se aproximaram pelo interesse, 
dividido por ambos, em preservar a ferrovia. No tinham nenhuma experincia em urbanismo, polticas pblicas e aes comunitrias. A partir daquele encontro, iniciaram 
uma campanha em que angariaram o apoio de moradores, celebridades e empresrios. Enfrentaram a resistncia de autoridades pblicas, como o ento prefeito Rudolph 
Giuliani, e tambm de empresrios do mercado imobilirio. David e Hammond conseguiram, ao fim, vencer a burocracia, assegurar a preservao da linha e arrecadar 
os 150 milhes de dlares, na maior parte recursos privados, investidos na construo do parque. O impacto no desenvolvimento da vizinhana  estimado em 2 bilhes 
de dlares, em termos de novos empreendimentos residenciais e comerciais, alm de novos restaurantes, galerias de arte e lojas. David e Hammond comandam atualmente 
a organizao Friends of the High Line, responsvel pela administrao do parque, com 90% de recursos privados. Inaugurado em 2009, com 1,6 quilmetro de extenso, 
o High Line recebeu 4,5 milhes de visitantes em 2012, mais que o Museu de Arte Moderna, o MoMA. 
     "Muitas cidades carregam um passado industrial, com suas fbricas antigas, galpes, ferrovias ou espaos desocupados  beira-mar", afirma David. A dificuldade 
quase sempre est em encontrar a melhor maneira de reciclar essa herana urbanstica. A resposta parece estar nos conselhos comunitrios. "O essencial  os moradores 
decidirem quais so os espaos pblicos a ser preservados e valorizados", afirma Hammond. Ambos conversaram com VEJA no fim de setembro, quando estiveram no Brasil 
para o lanamento do livro High Line  A Histria do Parque Suspenso de Nova York (Editora BEI, 340 pginas, 75 reais). 
     No passado, a prpria criao da ferrovia suspensa havia partido de uma campanha dos nova-iorquinos. Originalmente, havia linhas de trem de superfcie cruzando 
o West Side da cidade, construdas em meados do sculo XIX, correndo ao lado do Rio Hudsou e interligando portos, fbricas, frigorficos e armazns. Com o aumento 
do trfego de automveis, os acidentes e transtornos tornaram-se insuportveis. A soluo foi construir a High Line, inaugurada nos anos 30. A linha tinha um papel 
importante no abastecimento de Nova York, funo cuja utilidade caiu a zero a partir dos anos 60, com a introduo dos caminhes frigorficos e a transferncia dos 
entrepostos alimentcios para regies mais distantes. Os trilhos dormiram semiabandonados por anos, at renascerem como parque. 
     O High Line inspirou projetos semelhantes pelo mundo. O prprio parque de Nova York foi, em boa medida, inspirado no parisiense Promenade Plante, tambm construdo 
sobre o trajeto de uma linha frrea e aberto em 1993. H urbanistas que defendem a ideia de que o Minhoco, em So Paulo, possa um dia se transformar em um parque. 
Mas o sucesso do High Line no pode ser dissociado de um contexto mais amplo de revitalizaco. Vizinho a ele est o badalado Meatpacking District, a regio dos antigos 
frigorficos que, bem antes do surgimento do parque, j era um foco de renovao urbana. Os galpes deram lugar a lojas de grifes e restaurantes disputados. Com 
o High Line, a regio ganhou ainda mais apelo. O Whitney Museum of American Art est construindo ali a sua nova sede, em um projeto do arquiteto Renzo Piano, com 
inaugurao prevista para 2015. Ao norte, no terreno onde havia um ptio ferrovirio, ser erguido o Hudson Yards, o maior complexo imobilirio dos Estados Unidos, 
com 1,2 milho de metros quadrados, ao custo de 15 bilhes de dlares. Uma transformao radical para uma poro abandonada da Ilha de Manhattan, e tudo comeou 
em uma reunio de moradores de bairro. 


5#8 ESPORTE  A ARTE DE JOGAR A DOIS
O brasileiro Bruno Soares chega ao 3 lugar no ranking mundial do tnis de duplas, uma modalidade que exige dos atletas postura radicalmente diferente da que se 
v nas partidas de simples.
ALEXANDRE SALVADOR

     O tnis brasileiro teve dois grandes nomes de relevncia internacional: Maria Esther Bueno, nmero 1 do mundo por quatro anos nas dcadas de 50 e 60, e Gustavo 
Kuerten, tricampeo de Roland Garros, lder do ranking da ATP ao longo de 43 semanas entre 2000 e 2001. Na semana passada, Bruno Soares, um mineiro tmido de 31 
anos, entrou nesse grupo restrito ao despontar numa indita terceira colocao da listagem de duplas. Ao lado do austraco Alexander Peya, ele conquistou recentemente 
ttulos como o Masters de Montreal e o vice-campeonato do Aberto dos Estados Unidos. Apenas em 2013, Soares ganhou 585.000 dlares em premiaes, muito mais do que 
faturou em seis anos como discreto jogador de simples (sua melhor posio foi a 221 do ranking). "O sucesso no tnis  como o vestibular para medicina, muita gente 
concorrendo a poucas vagas no topo", diz o jogador. Soares ficou para trs nessa corrida individual e decidiu, em 2007, depois de dois anos parado em decorrncia 
de uma leso na tbia, tentar o crescimento nas duplas. Na transio de uma coisa para outra, teve de praticamente reaprender o esporte. 
     Embora sejam evidentemente semelhantes nas regras, as partidas de simples e duplas impem um olhar diferente tanto para quem joga quanto para quem acompanha 
pela televiso (veja o quadro abaixo). "O jogo de simples exige um jogador completo, que seja especialista nos golpes de fundo de quadra e que suporte partidas de 
longa durao", afirma Ricardo Acioly, ex-capito do Brasil na Copa Davis. "J as duplas valorizam a agilidade e a exploso, alm de bom desempenho em fundamentos 
mais especficos, como o saque, a devoluo e o voleio." O brasileiro se adaptou  perfeio. 
 tolice imaginar que, da soma de dois grandes tenistas individuais, resulte uma dupla campe. Um mais um, nesse caso, no d dois. "Ter Nadal e Federer, por exemplo, 
lado a lado no  garantia de bons resultados", diz Acioly. H o risco do confronto de egos, mas tambm o do desencontro de estilos. Some-se a esses obstculos um 
outro, o do calendrio quase insano. "Hoje, a exigncia fsica e mental do circuito impede que os melhores jogadores de simples disputem com a mesma intensidade 
os torneios de duplas", disse a VEJA Jaime Fernndez, especialista em cincia do esporte e membro da Real Federao Espanhola de Tnis. O chamado "tnis fora" moderno 
impede o aparecimento de lendas como as americanas Martina Navratilova e Pam Shriver, na dcada de 80, e os tambm americanos John McEnroe e Peter Fleming, nos anos 
70 e 80, que bailavam em sincronia fascinante. McEnroe, o gnio birrento, liderou os dois rankings entre 1981 e 1983. A respeito dele, disse o parceiro Fleming: 
"A melhor dupla do mundo  John e qualquer outro". 
     Hoje, os dois melhores so os gmeos americanos Bob e Mike Bryan, de 35 anos, no topo desde 2003, quase sem interrupo. Soares no mantm a mesma regularidade 
de parceria (o austraco Peya o acompanha h dezesseis meses). Mas ele sonha ir longe. "A longevidade  maior nas duplas. O meu auge ainda est por vir.

O MESMO ESPORTE, MAS COM UMA ESTRATGIA DIFERENTE
O que os duplistas fazem para driblar a falta de espao causada pela presena de um jogador a mais em cada lado da quadra
SAQUE - Costuma ser direcionado mais ao centro da quadra para dificultar a devoluo e aumentar as chances de o companheiro, que est na rede, matar a jogada.
DEVOLUO  Normalmente, ocorre de duas maneiras:
 No meio da quadra, entre os dois oponentes, para complicar a deciso sobre quem rebater
 Em direo ao corpo do adversrio, para forar o erro
SUBIDAS  REDE - Com frequncia, o tenista que sacou sobe  rede para se juntar ao companheiro e formar uma "parede ofensiva", que se antecipa  resposta do adversrio.

Fonte: Ludgero Braga Neto, doutor em biomecnica pela Universidade de So Paulo e coordenador tcnico da Academia Slice Tennis, em Alphaville, na Grande So Paulo.


5#9 MEDICINA  MEMRIAS DA SALA DE CIRURGIA
O anestesista paulistano Ruy Vaz Gomide do Amaral, de 87 anos, participou dos momentos mais emblemticos da medicina brasileira. Durante os 37 anos em que trabalhou 
no complexo do Hospital das Clnicas, em So Paulo, integrou as equipes dos primeiros transplantes de corao, de fgado e de rim realizados no pas. Foi o anestesista 
predileto do cone da cirurgia cardaca, Euryclides de Jesus Zerbini. Em 1985, fez parte do corpo mdico responsvel pelos cuidados com o presidente Tancredo Neves, 
que no tomaria posse. Gomide do Amaral acaba de lanar o livro O Anestesista (editora Livre Expresso), uma coletnea de lembranas pessoais e profissionais, como 
as contadas nesta entrevista a VEJA.
ADRIANA DIAS LOPES

A DOENA DE TANCREDO
"A morte de Tancredo Neves, em abril de 1985, foi provocada por uma sucesso de incidentes. Ele era provinciano e rebelde no que se referia  sade. Automedicava-se 
ou acreditava que um chazinho poderia resolver qualquer problema. Vinha sentindo dores abdominais muitos meses antes de ser internado, em maro daquele ano. Em janeiro, 
j eleito presidente, foi para Portugal com dores fortssimas na regio da barriga e febre alta. O que fez? Tomou antibitico por conta prpria. No dia 14 de maro, 
vspera da posse, teve uma infeco abdominal aguda grave e foi internado no Hospital de Base de Braslia. A partir da, tudo se complicou. Ele chegou ao hospital 
plido, branco. Precisava ser operado s pressas. O hospital estava lotado, e Tancredo foi levado para uma sala que no estava devidamente esterilizada, de onde 
acabara de sair um doente. Foi nesse local que o presidente passou por uma cirurgia para a extrao da poro do intestino infectada. Umas quarenta pessoas assistiram 
 operao, entre mdicos, enfermeiros e curiosos. No ps-operatrio, houve outro incidente. Tancredo foi submetido a uma sonda nasogstrica, para drenar lquidos 
do intestino. Sentiu muita dor durante a colocao do tubo, debateu-se muito e acabou por romper a sutura no intestino. Foi a que chamaram Henrique Walter Pinotti, 
cirurgio do Hospital das Clnicas, para oper-lo novamente."

A FARSA DA FOTOGRAFIA
"Trs ou quatro dias depois de oper-lo, Pinotti, com nsia de aparecer, teve a ideia da famosa fotografia de Tancredo ao lado dos mdicos. Queria mostrar  populao 
que tudo estava indo muito bem. Aquilo foi uma irresponsabilidade mdica. Um absurdo, e  uma pena que ele j tenha morrido e no  possa explicar o que o levou a 
tal iniciativa. Tancredo no estava bem. Os soros que ele tomava foram escondidos atrs do sof. Ele no poderia ficar sentado. E vou dizer mais: quando o presidente 
estava sendo levado at a sala onde seria fotografado, avisou: 'Alguma coisa se rompeu na minha barriga'. Poucas horas depois, sofreu uma perda sangunea violenta. 
Diante da gravidade do quadro de sade, a famlia decidiu transferi-lo para o Incor. Tancredo chegou a So Paulo com apenas um tero do volume total de sangue de 
seu organismo."

A VERDADE ESCONDIDA
"O real estado de sade de Tancredo foi escondido por uma deciso exclusiva de Pinotti. Ns, mdicos, jamais fomos pressionados por polticos ou parentes. Pinotti 
terminava uma cirurgia e subia direto para o 4 andar do hospital, onde ficavam os familiares de Tancredo, para dizer que estava tudo bem e que, em alguns dias, 
ele assumiria a Presidncia. Na realidade, Tancredo estava muito mal. Vrias vezes Pinotti abriu a barriga de Tancredo apenas para limpar a rea com antibitico, 
sabendo que nada alm aconteceria. E, mesmo assim, ele repetia para a famlia: 'Agora est tudo resolvido". Quando j sabamos que o caso no teria mais volta, Pinotti 
decidiu convocar uma entrevista de modo a dar esperana ao povo. Disse a ele que no poderia aceitar aquela postura. Mas Pinotti no me ouvia. Ele era o professor 
titular de cirurgia, uma autoridade, o chefe da equipe. Ele brigava com a gente, chamava-nos de pessimistas. Trabalhei com inmeros cirurgies e posso dizer que 
a maioria no se comporta como se estivesse acima do bem e do mal. S os inseguros agem dessa forma. Em um determinado momento, decidi avisar dona Risoleta (mulher 
de Tancredo Neves) sobre a situao. Ela era uma das poucas pessoas que sabiam exatamente o que estava acontecendo. Alguns dias antes da morte,  noite, Ulysses 
Guimares e Franco Montoro me chamaram  diretoria do Incor para saber o real prognstico. Respondi que "nada impediria que o pior acontecesse". Ao sair da sala, 
Ulysses chegou mais prximo e me disse: 'Aqui est meu telefone. Por favor, me avise se a situao se definir porque teremos de tomar uma providncia urgente para 
o pas no ficar acfalo". No dia 21 de abril, s 10h24 da noite, o corao de Tancredo parou. Eu estava l. Todos choraram, inclusive eu." 

OS AVANOS NA ANESTESIOLOGIA
"Os progressos em minha rea mudaram o perfil das cirurgias, tornando possvel a realizao de procedimentos de grande porte com extrema segurana. Os conhecimentos 
em fisiologia e em farmacologia adquiridos nos ltimos anos permitiram controlar a potncia da anestesia ao patamar de segundos. Dessa forma, o paciente acorda rapidamente 
ou, ao contrrio, tem a anestesia prolongada por quanto tempo for necessrio. Muitos ainda tm medo do procedimento. Mas isso  por absoluto desconhecimento. O problema 
 que o paciente praticamente no tem contato com o anestesista. Quem escolhe esse profissional no  ele, mas o cirurgio. Isso tem de acabar. s vezes, eu era 
chamado pela famlia antes de uma operao, e isso faz toda a diferena. A anestesia  o procedimento mais seguro de uma cirurgia."

MDICOS CUBANOS
"Esses profissionais se formam em lugares sem infraestrutura alguma. Faltam at fios para sutura nas faculdades cubanas. Alm disso, eles no sabem a nomenclatura 
dos remdios brasileiros. Portugus no  espanhol. No  um cursinho que os far entender. O regime de trabalho dos cubanos, ainda por cima, se configura como trabalho 
escravo. Eles no podem trazer a famlia, o salrio no vai todo para eles. O que deveria ser feito  simples: o governo poderia criar caravanas de mdicos brasileiros 
das mais variadas especialidades para percorrer o Brasil e rastrear o real problema dos hospitais no pas, que  a falta de infraestrutura. Eu, por exemplo, sou 
paciente do Incor, o hospital que ajudei a fundar, em 1977. Sempre fui muito bem tratado. Mas no sou um bom parmetro. Afinal, sou mdico e trabalhei durante nove 
anos l. As pessoas me reconhecem. Mas o Incor de hoje fica muito a dever ao Incor do meu tempo. De maneira geral, o servio pblico  uma lstima. Tenho duas empregadas. 
Uma delas tem de pegar meia dzia de comprimidos na farmcia do Hospital das Clnicas. Para isso, ela precisa ficar das 7 da manh s 4 da tarde em uma fila. E veja 
que estou aqui me referindo a dois hospitais da cidade de So Paulo entre os melhores do servio pblico do pas."

O PRIMEIRO TRANSPLANTE DE CORAO
"A equipe de Zerbini tinha tudo para ter sido a primeira no mundo a realizar um transplante cardaco, em 1967 (data do primeiro transplante, feito pelo mdico sul-africano 
Christiaan Barnard). S no foi porque a clnica mdica do hospital no liberava os pacientes para Zerbini, com a estranha alegao de que lhe faltava cultura geral. 
Zerbini podia at no ser muito culto, mas era um gnio em cirurgia. Foi o melhor cirurgio do pas, e at hoje no surgiu outro igual. Ele no perdia um movimento 
cirrgico, dissecava com perfeio. Era um perfeccionista, um obcecado. Ele no sabia falar ou fazer outra coisa. (O primeiro transplante realizado no Brasil ocorreu 
em 1968.) Zerbini dizia detestar sbado e domingo porque no podia operar. At o dia em que o filho dele morreu, e Zerbini passou a operar de segunda a segunda, 
a praticamente viver no hospital. Aquela morte acabou com ele. Eduardo, o filho do meio, morreu em um acidente de carro no dia em que passou no exame para a residncia 
de cirurgia, no Hospital das Clnicas. Era o nico dos trs filhos de Zerbini que havia feito medicina."

UM INCMODO FAMILIAR
"Trabalhei demais. Muitas vezes dormi no hospital por falta de tempo de voltar para casa e retornar no dia seguinte. Fiquei metido em salas cirrgicas e esqueci 
dos meus filhos. No os vi crescer. No  um arrependimento. Mas me incomoda.  uma cruz que carrego." 

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6# GUIA 

     6#1 COMO ESCOLHER A ESCOLA IDEAL
     6#2 DE OLHO NA CRIANA
     6#3 BILNGUE DESDE PEQUENO

6#1 COMO ESCOLHER A ESCOLA IDEAL
POUCAS RESOLUES FAMILIARES GERAM TANTA INSEGURANA, PRINCIPALMENTE PARA OS PAIS DE PRIMEIRA VIAGEM, COMO A ESCOLHA DA ESCOLA DO FILHO. DE FATO, NO EXISTE A FRMULA 
DA ESCOLA PERFEITA.

     "Muitos fatores entram na balana, da condio socioeconmica da famlia s caractersticas emocionais e cognitivas da criana. Por isso, as palavras-chave 
para essa escolha so prioridades, compensaes e comunicao", diz a psicopedagoga paulista Adriana Foz. Ou seja, muito dilogo entre os pais ajuda a definir o 
que eles consideram indispensvel na instituio, e ainda aponta caminhos para a compensao de eventuais falhas ou lacunas. Em um aspecto os especialistas so unnimes: 
a filosofia da escola deve estar alinhada aos valores familiares. O processo exige dedicao: escarafunchar o site, comparar as mais recentes posies no Enem e 
conversar com pais de alunos  apenas uma parte da gincana. Mas a visita ao estabelecimento e, claro, uma boa conversa com o diretor e o coordenador pedaggico  
que podem revelar qualidades e defeitos. No dia da visita, o olhar da criana tambm deve pesar na deciso. Afinal, se ela no se sentir bem no ambiente, a adaptao 
poder ser ainda mais complicada. A seguir, dicas para os pais que esto comeando essa peregrinao. 

QUALIDADE DO ENSINO
Mesmo os pais que no veem a escola primordialmente como o caminho que leva ao vestibular devem conhecer o projeto pedaggico da instituio. Informar-se sobre a 
formao do corpo docente  fundamental; investigue se os professores so graduados na rea que lecionam e se a escola investe na sua capacitao contnua, bem como 
em cursos de atualizao dos coordenadores pedaggicos. Conhea a poltica da instituio sobre lio de casa: pouca tarefa no  bom sinal, j que o debruar-se 
sobre a matria ensinada antes em sala  parte fundamental da fixao de conceitos e de um treino que no tem preo  o de autodisciplinar-se e "aprender a aprender". 
Durante a visita, verifique se os laboratrios de cincias e as salas multimdia so bem equipados. E veja se a biblioteca incentiva a leitura: seu filho se sentiria 
convidado a frequent-la ou seria repelido pelo cheiro de mofo?

DESENVOLVIMENTO SOCIOEMOCIONAL
"O papel da escola no se restringe  preparao para o vestibular.  seu dever tambm oferecer formao humana e cultural", diz Clia Maria Guimares, professora 
do departamento de educao da Universidade Estadual de So Paulo (Unesp). A escola tem de estar atenta a manifestaes de medo, raiva e tristeza, por exemplo. Quando 
identifica tais comportamentos, a coordenao convida os pais a conversar e tentar entender sua causa? Outro termmetro: coordenadores e diretores so capazes de 
citar casos concretos de alunos com dificuldade de aprendizagem, como dislexia, e demonstram segurana e objetividade ao relatar como costumam lidar com o problema?

ESTIMULO  CRIATIVIDADE
As paredes da escola exibem desenhos, colagens e outros projetos artsticos realizados pelas crianas? Se a resposta  sim, ponto para a escola. Expor os trabalhos 
dos alunos  um sinal de que a escola valoriza a criatividade dos pequenos desde a educao infantil. O teor das atividades, claro, tambm incentiva (ou no) a imaginao. 
"A escola que prioriza a criatividade no d desenhos prontos para a criana colorir. Ela emprega diferentes tcnicas de desenho e pintura para estimul-la", diz 
Clia Guimares. Por fim, uma programao frequente, com contadores de histrias, aulas de teatro e clube do livro, alimenta o lado criativo dos alunos 

VALORIZAO DA DISCIPLINA
O ideal  que se busque o equilbrio entre a imposio da disciplina e o estmulo  autonomia. Durante a visita, pergunte qual seria a conduta da direo caso seu 
filho violasse uma regra da escola. A resposta pode revelar desde uma instituio rgida demais, disposta a suspender o aluno que comete a mais leve infrao, at 
uma escola excessivamente tolerante, que no impe os devidos limites a comportamentos prejudiciais ou antissociais. O melhor  encontrar o meio-termo  ou seja, 
a escola que sabe identificar situaes que exigem providncias imediatas, mas est tambm aberta ao dilogo, a conversar com a criana e seus pais antes de agir. 
O que se almeja  que nem o aluno seja condicionado a obedecer cegamente nem ande na linha s quando est sendo vigiado, tampouco sinta que pode fazer o que bem 
entender  mas, sim, desenvolva a capacidade de compreender e seguir regras que so criadas em prol do bem comum. A escola, porm, no est sozinha nessa tarefa: 
 importante que os pais endossem e legitimem sua filosofia disciplinar, para que a criana no receba um recado em casa e outro, contraditrio, no colgio, explica 
Teresa Messeder Andion, diretora da Associao Brasileira de Psicopedagogia

SISTEMA DE AVALIAO
A pontuao da prova  o principal sistema de avaliao nas escolas mais tradicionais; em outras, ela  apenas parte de um processo que inclui trabalhos interdisciplinares 
e o desempenho do aluno nas atividades em grupo. Em ambos os casos, a chave est na comunicao entre escola e famlia: quanto mais estreita  a relao dos pais 
com o colgio, maior  a preocupao da instituio com a qualidade do aprendizado. Ou seja, verifique se o boletim de notas  o nico meio de informao sobre o 
desempenho escolar ou se, no decorrer do ano, os pais tm acesso  evoluo do filho tambm atravs de relatrios e avaliaes 


6#2 DE OLHO NA CRIANA
Conhecer a fundo o projeto pedaggico da escola  um dos pilares do processo de escolha da instituio. Outro fator determinante nessa deciso  o perfil do pequeno 
 em especial se ele d sinais de ter interesses ou traos de personalidade muito marcantes. A criana  muito tmida? Ou  excepcionalmente independente e cheia 
de opinio? Demonstra uma veia artstica acentuada? Ou no quer saber de desenho nem teatrinho, mas tem uma aptido clara para a matemtica e disciplinas afins? 
Esses so apenas alguns exemplos de situaes que podem pr o aluno em choque com a instituio de ensino, transformando sua rotina em martrio e afetando seu desempenho 
na sala de aula. Afinal, a criana infeliz na escola acaba perdendo a motivao e o interesse pelos assuntos acadmicos. Traos de personalidade e aptides pessoais 
explicam tambm por que um colgio pode atender s necessidades de um filho mas, ao mesmo tempo, revelar-se incompatvel com as de seu irmo mais novo. " comum 
que, em uma famlia com trs filhos, pelo menos um deles tenha de estudar em uma escola diferente em algum momento da vida", diz a psicopedagoga Adriana Foz, de 
So Paulo. A profissional listou perfis cognitivos baseados em habilidades e idiossincrasias. Para cada perfil, d um peso de 0 a 3. E use ento esta tabela de notas 
para, naquele momento de dvida entre um e outro colgio, refletir sobre em qual deles seu filho se sentiria mais acolhido:  
() Esportista
() Criativo
() Intelectual 
() Artstico
() Inventor
() Comunicativo 
() Lder
() Prtico
() Lgico/Racional


6#3 BILNGUE DESDE PEQUENO
Matricular o filho em uma escola internacional ou bilngue  uma opo atraente para as famlias que tm no aprendizado de um segundo idioma uma prioridade. A seguir, 
as diferenas entre esses dois tipos de instituio. 

ESCOLAS BILNGUES 
Como funcionam: o novo idioma  introduzido aos poucos e de forma ldica. A tendncia  priorizar a alfabetizao na lngua nativa e s ento passar a oferecer parte 
das aulas no segundo idioma 
A idade ideal: na maioria delas, os alunos podem ingressar a qualquer momento - mas a melhor fase para iniciar o aprendizado pleno de um idioma  entre 1 e 4 anos 
Mensalidade mdia: de 1500 a 3000 reais 

ESCOLAS INTERNACIONAIS 
Como funcionam: concorridssimas, essas escolas  na maioria americanas ou britnicas  costumam abrir processo seletivo duas vezes por ano. Mesmo assim, sempre 
h muito mais candidatos do que vagas. Concentradas em capitais como So Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, elas oferecem todas as aulas em ingls; exceto, 
claro, algumas disciplinas, como o prprio portugus ou histria do Brasil. Voltadas para filhos de expatriados ou de ex-alunos, funcionam em perodo integral e, 
geralmente, seguem o calendrio do Hemisfrio Norte, no qual o ano letivo tem incio em setembro 
A idade ideal: o aluno  aceito em qualquer idade. Mas  comum que, a partir dos 3 anos, ele tenha de comprovar a capacidade de se comunicar no idioma da escola 
Mensalidade mdia: de 3300 a 6000 reais 

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7# ARTES E ESPETCULOS 

     7#1 CINEMA - BABILNIA, 1980 d.C.
     7#2 CULTURA  MAS NO ERA PROIBIDO PROIBIR?
     7#3 LIVROS  BELEZA FUNDAMENTAL
     7#4 TELEVISO  VAMPIRO DA IMAGEM
     7#5 VEJA RECOMENDA
     7#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#7 J.R. GUZZO  CLIENTELA IDEAL

7#1 CINEMA - BABILNIA, 1980 d.C.
Um longa de fico se prope a explicar o incompreensvel: a febre que juntou 100.000 homens no cenrio primitivo e bablico de Serra Pelada.
ISABELA BOSCOV

        Era uma viso verdadeiramente babilnica: dezenas de milhares de homens subindo e descendo de uma bocarra na terra em escadas toscas de pau, ou equilibrando-se 
em filas sem comeo nem fim pelas trilhas esculpidas de barro, com sacos s costas  e tudo, da cratera aos homens apinhados nela, banhado na mesma lama espessa. 
Nas fotos mais prximas, os nicos traos que escapavam da argila eram os olhos, e o sorriso: Vamos bamburrar  eis o esprito que animava os 100.000 formigas 
que entre 1980 e 1987 se amontoaram nas cavas primitivas de Serra Pelada, o maior garimpo manual da histria. O Brasil da dcada de 80 era pobre, voltil, atrasado, 
imprevisvel. Mas, mesmo para ele, o cenrio que se foi compondo no sul do Par era por demais dantesco  ou bblico, ou bablico: s adjetivos associados  humanidade 
mais remota poderiam descrev-lo, ainda que no dessem conta dele. Eis por que no  coisa fcil evoca-lo em um filme, como se prope o diretor Heitor Dhalia em 
Serra Pelada (Brasil, 3013), que estreia no pas nesta sexta-feira.
        Quem foi contemporneo de Serra Pelada guarda uma impresso profunda e inerradicvel, formada primeiro pelas fotos nos jornais e imagens nos telenoticirios, 
e depois pelas composies sombrias, quase tenebrosas, que Sebastio Salgado tirou dali e que construram sua reputao como fotgrafo de paisagens humanas extremas. 
Quem no viu aquilo brotando da terra do sul do Par e se agigantando, por outro lado, no tem referncia do misto de assombro e perturbao que se sentiu. E no 
dispe, tambm, do mosaico de informaes sobre a vida no garimpo que se foi formando durante aqueles anos. Por exemplo, sobre a terra primeiro sem lei, e depois 
submetida ao governo draconiano do major Curi, que aboliu a bebida, as prostitutas e as armas de fogo dos barrancos, mas deixou que elas proliferassem no faroeste 
que surgiu a uns tantos quilmetros dali, para que a panela de presso no explodisse. Ou os homens maltrapilhos e desesperados que s vezes achavam uma pepita miraculosa 
e assim atiavam a imaginao de mais e mais homens como eles; os "coronis de barranco" que exploravam os "formigas", os preos estratosfricos que se pagavam por 
uma cerveja ou uma noite com uma mulher e que faziam os homens deixar sua riqueza ali mesmo, na hora, no lugar de onde a haviam tirado. 
     Esse painel, Dhalia o recria com grande sucesso  assim como o cenrio em si, que, por razes prticas, a produo desistiu de registrar na locao original 
(ainda hoje um faroeste de assustar, conforme a produtora Tatiana Quintella). O garimpo de Serra Pelada teve de ser reinventado com algumas centenas de figurantes 
em Mogi das Cruzes, no interior de So Paulo, onde uma mineradora cedeu  equipe uma cava em desuso, com 100 metros de profundidade e rea equivalente  de dois 
campos de futebol. J as caractersticas mais subjetivas de Serra Pelada, a febre e a irrealidade  essas por vezes eludem Dhalia. 
     Serra Pelada acompanha os destinos divergentes de dois grandes amigos sem nada em comum alm da lealdade um ao outro. Joaquim (Jlio Andrade)  gentil e urbano, 
um professor que perdeu o emprego e aguarda com os bolsos vazios a chegada do primeiro filho. Juliano (Juliano Cazarr)  um sujeito rstico mas carismtico, um 
aventureiro sem nada a perder. Ambos partem de So Paulo em 1980, atrados pelas primeiras notcias sobre a jazida. Comeam como formigas, "bamburram" um pouco e 
assim compram um barranco, e mais e mais vo cavoucando o buraco no qual se enfiaram. O mote de Serra Pelada  no s a maneira como a ganncia destri tudo o que 
une Joaquim e Juliano (e desperta a natureza violenta deste), mas tambm a efemeridade dessa riqueza achada no acaso: ganha-se, perde-se e nunca se sai dali, sempre 
achando que o prximo ganho  que vai ser o tal. 
     H grandes achados nessa histria. Por exemplo, a trilha com prolas do brega, ou a divertida montagem com garimpeiros que deram a sorte grande e a torraram 
na extravagncia  comprando um carro para cada dia da semana (um Opalo, uma Belina e por a vai) ou fretando um jato para voar sozinho at os prostbulos de Belm. 
 inflamvel tambm a participao de Sophie Charlotte como a moa que o empreendedor Carvalho (Matheus Nachtergaele) tirou da prostituio, e a quem ele veste de 
dourado e chama de "minha pepita" (Juliano,  claro, olha para ela e decide que  por a mesmo que vai comear a garimpar). E  inquietante e fascinante a presena 
de Wagner Moura no papel de Lindo Rico, um tipo que  perigoso a qualquer momento e mais ainda quando est sorrindo e falando manso. Numa composio to sensacional 
(e cmica, de um jeito aterrorizante) quanto o prprio nome do personagem. Moura  quem imprime ao filme a sensao de um mundo periclitante em nascimento: Lindo 
Rico  uma criatura anterior at a ideias como bem e mal, uma espcie de deidade desejosa de vencer, aniquilar ou submeter todos os deuses menores dessa Antiguidade 
moderna que ele quer controlar  como Carvalho e o prprio Juliano, que continua ascendendo. 
 nesse tranar da crnica das coisas aos sentimentos que elas provocam, porm, que Serra Pelada expe suas ocasionais fragilidades. A recriao  primorosa e se 
apoia naquele tipo de pesquisa metdica de que o cinema nacional poucas vezes tem pacincia para se incumbir. Mas, ainda que seja compreensvel nos termos de um 
roteiro de fico, causa estranheza inegvel a ausncia de uma meno sequer  figura altamente controversa que se tornou o emblema de Serra Pelada: o tenente-coronel 
do Servio Nacional de Informao Sebastio Curi Rodrigues de Moura, que foi enviado pelo regime militar ao garimpo para botar ordem na casa e, numa reviravolta, 
acabou capitaneando o movimento que obrigou o governo a estender as operaes manuais em Serra Pelada para alm de 1983  postura que fez dele um dolo entre os 
garimpeiros e o elegeu deputado federal e, mais tarde, prefeito da cidade que o homenageia no nome, Curionpolis. A iluso traioeira que esses homens perseguem 
est l, na paisagem meticulosamente recriada e na briga de morte em que Joaquim e Juliano se enfrentam  s que ela por vezes se dilui no detalhe com que o roteiro 
quer explicar as idas, vindas e porqus desse relacionamento. Sente-se falta, sobretudo, daquela neblina de desatino que pairava sobre Serra Pelada. O filme consegue 
descrever o fenmeno. Mas, da mesma forma que os adjetivos com que se tenta exprimi-lo, no tem como dar conta dele inteiro. 
COM REPORTAGEM DE BRUNO MEIER


7#2 CULTURA  MAS NO ERA PROIBIDO PROIBIR?
Artistas que devem muito de sua lenda  perseguio que sofreram na ditadura militar agora desejam decidir, como generalzinhos, o que pode ou no ser dito sobre 
sua vida.
SRGIO MARTINS

     O professor Srgio Lazzarini, na entrevista das Pginas Amarelas desta semana (veja na pg. 15), sugere que o estatismo de Dilma Rousseff lembra muito o governo 
de Ernesto Geisel. Na cultura, tambm tem gente com saudade do general. Se no, vejamos: em 1974, Chico Buarque, sob o pseudnimo Julinho da Adelaide (expediente, 
vejam que ironia, para driblar a Censura), lanou a cano Jorge Maravilha. Criou-se a lenda  mais tarde desmentida pelo compositor  de que o refro "'voc no 
gosta de mim, mas sua filha gosta" aludiria ao fato de que Amlia Lucy, filha do general-presidente Ernesto Geisel, era f de Chico, um dos artistas mais proibidos 
pelo regime militar. Pela mesma poca, Geisel deu ordens expressas para que sua mulher e filha fossem mantidas fora dos noticirios. Valeu-se de suas prerrogativas 
ditatoriais para preservar a privacidade da famlia. Pois Chico deseja ter o mesmo poder discricionrio de determinar o que se pode ou no dizer a seu respeito. 
O compositor de Apesar de Voc integra, ao lado dos amigos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento. Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Djavan, a associao 
Procure Saber, que tem entre suas reivindicaes a manuteno do direito de veto a biografias hoje inscrito nos artigos 20 e 21 do Cdigo Civil. Sim, os censurados 
converteram-se em defensores da censura. 
     Presidida pela empresria Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano, a associao marcou posio dura contra a liberao das biografias no autorizadas pretendida 
por um projeto de lei do deputado Newton Lima, do PT de So Paulo, e por uma Ao Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida contra os artigos 20 e 21 pela Associao 
Nacional dos Editores de Livros (Anel). O projeto permanece atolado no Congresso, mas a ADI ganhou parecer favorvel do Ministrio Pblico e est sob os cuidados 
da ministra Crmen Lcia, do Supremo Tribunal Federal. Tal como est, a lei permite que figuras pblicas e seus herdeiros impeam a circulao de biografias que 
no lhes agradem. Foi graas a essa aberrao legal que o cantor Roberto Carlos conseguiu proibir, em 2007, a circulao de Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo 
Csar de Arajo, e que sobrinhas de Noel Rosa puderam tirar das livrarias uma biografia feita por Joo Mximo e Carlos Didier. Embora as biografias estejam mais 
diretamente na linha de tiro, o artigo 20, que probe genericamente o uso comercial da "imagem" de uma pessoa, tambm pode tolher outros gneros  neste ano, os 
incansveis advogados de Roberto Carlos ameaaram at um livro sobre a moda da jovem guarda. 
     "No h outro termo para designar isso seno censura", diz Gustavo Binenbojm, professor de direito da Uerj e advogado da Anel. Afirma outro especialista na 
matria, o advogado Jos Carlos Costa Netto: "Vai na contramo da democracia e da difuso da informao cultural". Paula Lavigne, no entanto, tenta driblar a palavra 
maldita  censura  alegando proteger um direito maior, a privacidade. A mulher que gosta de frequentar revistas de celebridades diz que "expor a vida ntima e privada 
de homens e mulheres pblicos"  apenas "fofoca". Para conferir um elemento de mesquinharia  abjeo poltica que  a censura prvia, h uma ambivalncia na forma 
como a Procure Saber trata do assunto: ao mesmo tempo em que defende o direito  privacidade, estende a mo gananciosa para os lucros que autores e editores auferem 
com a publicao de biografias. A privacidade, apesar de sagrada, parece estar  venda. Djavan chegou a se queixar de que os bigrafos fazem "fortunas"  custa dos 
biografados. O cantor com isso demonstra ignorar a realidade do mercado editorial  quase ningum fica rico com livros no Brasil. E ainda faz pouco da dedicao 
exigida pelo trabalho de um bigrafo. 
     Nem todos os artistas da MPB so favorveis  mordaa. Alceu Valena, Nana Caymmi e Lobo manifestara-se  contra as pretenses autoritrias da Procure Saber. 
E o msico e produtor Joo Marcelo Bscoli, filho da cantora Elis Regina, d uma lio de esprito democrtico. Sua famlia nunca morreu de amores por Furaco Elis, 
biografia escrita pela jornalista Regina Echeverria. Mas os herdeiros de Elis compreendem que liberdade de expresso  tambm a necessidade de ouvir o que no se 
quer: jamais se moveram para proibir o livro. "Sou filho de uma mulher que passou a vida lutando contra a censura. Porque eu deveria atuar como censor?", diz Bscoli. 
"Passou a vida inteira lutando contra a censura": eis uma frase que j no se poder ler em uma biografia de Chico, de Caetano ou de qualquer outro associado da 
Procure Saber.

BIOGRAFIAS MANCHADAS
Caetano Veloso, acompanhado pelos Mutantes, canta  Proibido Proibir em 1968 e Chico Buarque participa da Passeata dos Cem Mil, contra a ditadura, no mesmo ano: 
antes, pediam liberdade; hoje, querem controlar o que dizem a respeito de sua vida e obra.

QUEM TE VIU
Os compositores que hoje defendem a censura cantavam em outro tom no tempo da ditadura
"E eu digo sim / E eu digo no ao no / E eu digo: ! / Proibido proibir..."
 Proibido Proibir, de Caetano Veloso

"Quando chegar o momento / esse meu sofrimento / Vou cobrar com juros, juro /
Todo esse amor reprimido / Esse grito contido / Esse samba no escuro "
Apesar de Voc, de Chico Buarque

"Como  difcil acordar calado /Se na calada da noite eu me dano / Quero lanar um grito desumano / Que  uma maneira de ser escutado"
Clice, de Chico Buarque e Gilberto Gil


7#3 LIVROS  BELEZA FUNDAMENTAL
Duas biografias narram a trajetria dos pioneiros de uma indstria bilionria que mostraria s mulheres do mundo a fora de um pote de creme ou de um batom.
MARIO MENDES

     Baixa, gorducha, cabelos negros presos em coque, traje de alta-costura e joias, muitas joias. Helena Rubinstein, a rainha dos cosmticos, queria que sua presena 
transmitisse, antes de tudo, riqueza e poder (ela compensava a pouca estatura com saltos altssimos e ambientes com escadas, onde se posicionava dois degraus acima 
dos interlocutores). Max Factor, o rei da maquiagem, tambm era baixinho e invariavelmente se apresentava vestido com um guarda-p branco e culos de aros redondos. 
Uma cliente, estrela do cinema mudo, o descreveu como um misto de "maquiador, farmacutico e figura paterna". Pioneiros de uma indstria bilionria, esses monstros 
sagrados so os personagens das biografias A Mulher que Inventou a Beleza, de Michle Fitoussi (traduo de Vera Lcia dos Reis; Objetiva; 398 pginas; 49,90 reais) 
e O Homem que Mudou as Faces do Mundo, de Fred E. Basten (traduo de Daniela P.B. Dias: Matrix; 190 pginas; 39,90 reais). 
     Michle, ex-editora da Elle francesa, correu o mundo vasculhando arquivos e entrevistando os poucos remanescentes que conheceram bem '"madame" (como a cosmetloga 
exigia ser chamada), morta aos 92 anos, em 1965. "No fiz uma biografia, mas uma narrativa de no fico. Algumas passagens foram romanceadas para dar fluncia  
leitura", explicou a autora a VEJA. Seu retrato  direto e envolvente, e no deixa de fora traos desagradveis da personalidade de Helena, como a sovinice, a tirania 
com os empregados e a total incompetncia em demonstrar afeto para com os dois filhos. J o americano Basten lana mo de seu conhecimento da histria de Hollywood 
e de sua experincia como ex-assistente do diretor de relaes pblicas da Max Factor Company. Assim, o perfil  sempre lisonjeiro  como se o prprio Factor, morto 
em 1938, pudesse ler o livro. Mas as informaes sobre suas criaes para a indstria da beleza so ricas em detalhes. 
     Curiosamente, os soberanos da cosmtica compartilham alguns dados importantes: nasceram ambos em 1872, na Polnia, em famlias humildes, numerosas e de origem 
judaica  ela em Kazimierz, ele em Lodz. Algumas fontes registram o nascimento de Factor em 1877, e madame subtraiu cinco anos de sua idade na juventude  diferena 
que ia aumentando  medida que ela envelhecia. Tambm foram ambos autodidatas, aprendendo o ofcio ao passo que as necessidades se apresentavam e o faro para os 
negcios se apurava. Desde o incio, Helena cercou-se de mdicos e cientistas para validar a eficcia dos cremes que fabricava sob o lema "a cincia a servio da 
beleza". Na adolescncia, Factor trabalhou em uma farmcia em Berlim, onde aprendeu a manipular substncias qumicas. Conhecimento muito til quando foi produzir 
maquiagem para os artistas da pera de Moscou ou, na chegada a Hollywood, ao inventar a frmula do pancake, a espessa base que no rachava nem derretia sob os holofotes 
dos estdios. 
     Na avanada idade de 24 anos, Helena, que recusava sucessivos pretendentes, foi despachada para viver com tios na Austrlia. Sofreu, chorou e trabalhou de sol 
a sol at abrir o primeiro salo, em Melbourae, graas s vendas de um creme rejuvenescedor feito a partir de uma antiga receita de famlia. Em um perodo de dez 
anos, passou tambm a fabricar cosmticos e abriu sales em Londres e Paris, at se estabelecer em Nova York no incio da I Guerra. Para um e outro, a Amrica foi 
a galinha dos ovos de ouro. Max Factor (originalmente Maximilian Faktorowicz) chegou aos Estados Unidos em 1904, fugindo do antissemitismo da Rssia czarista. Enriqueceu 
com itens de maquiagem feitos especialmente para um novo meio de entretenimento, o cinema. Seu filho, Max Factor Jr., se encarregaria da industrializao e comercializao 
em massa dos inventos do pai. A ironia  que nenhum dos dois entendeu a dimenso do fenmeno que haviam criado. Basicamente negociantes, nem Helena nem Factor viam 
seus produtos como vetores de mudanas nos hbitos femininos. Apenas encorajavam as consumidoras a no sair de casa sem pelo menos aplicar um batom, fosse para ir 
s compras, fosse para fazer a revoluo. Como dizia madame: "No existem mulheres feias  s preguiosas". 


7#4 TELEVISO  VAMPIRO DA IMAGEM
Por baixo dos babados e paets, Behind the Candelabra, telefilme de Steven Soderbergh sobre o pianista americano Liberace, revela os efeitos monstruosos do narcisismo.
MARCELO MARTHE

     J fazia um bom tempo que o jovem Scott Thorson (Matt Damon) se desdobrava como secretrio, dama de companhia e amante do pianista americano Liberace (Michael 
Douglas). Certo dia, ao entrar sem aviso num cmodo da manso do chefe e marido, Thorson se surpreende com a ausncia de um detalhe definidor da persona extravagante 
de Liberace: em vez do topete elevado a alturas que desafiavam o poder de fixao do laqu, desnuda-se a plancie de um coco careca. "Agora voc conhece meu segredo. 
Vou promov-lo a cuidador de minhas perucas", diz o artista.  difcil no achar graa em certas passagens de Behind the Candelabro (Estados Unidos, 2013). Mas o 
telefilme que estreia no sbado 19, s 22 horas, na HBO, provoca s o meio-riso. Eis sua perturbadora qualidade: o humor sempre travado pelo incmodo da situao. 
     Antes de se associar  HBO americana, o diretor Steven Soderbergh levou a ideia do filme aos estdios de Hollywood  mas os executivos tiraram o corpo fora, 
sob a alegao de que a histria era "muito gay". Behind the Candelabro , decerto, muito gay. Um Michael Douglas recm-liberado do tratamento do cncer na garganta 
e um Matt Damon metido em shortinhos fiodental e exibindo um "bronzeado  brasileira" se atracam a cada minuto na alcova. No seria possvel contornar esse aspecto 
da biografia do americano Wladziu Liberace (1919-1987). Virtuose do piano, ele abriu mo de uma carreira na msica erudita em favor dos holofotes e do dinheiro trazidos 
por seus coruscantes recitais de cancioneiro popular nos cassinos de Las Vegas. Liberace se "montava" com babados e capas, entrava em cena em carres reluzentes 
e, pendurado em cabos, voava sobre a plateia. O ttulo do filme alude a seu hbito de se apresentar com um candelabro ostentoso sobre o piano. Embora negasse ser 
homossexual e tivesse at processado jornais que o tiraram do armrio, o pianista se atirava, voraz, sobre os garotes. O filme se esmera na reconstituio de seu 
mundo bizarro. Soderbergh usa o arsenal de brilho ftuo, contudo, para iluminar um desvo psicolgico: os efeitos perversos de uma personalidade narcsica sobre 
aqueles que se dedicam a atender aos caprichos desta. 
     Liberace se coloca num pedestal to espetaculoso quanto seu topete. E necessita de espelhos, muitos espelhos, para sua autoafirmao. Encontrou o prprio reflexo 
no aplauso e na venerao do pblico: a certa altura dos anos 1950, quando ele era estrela de um programa na televiso, sua fama nos Estados Unidos s era menor 
que a de Elvis Presley. Mas um narcisista precisa de espelhos tambm na vida privada. Thorson  cujo livro de memrias serviu de base para o roteiro do filme  cumpriu 
esse papel. Foi seduzido pela personalidade transbordante de Liberace, 39 anos mais velho. Mas o que parecia ser amor vai se revelando uma obsesso patolgica. Thorson 
est ali como um bibel. Serve apenas para adular o pianista e satisfazer as suas necessidades sexuais. Desenvolve-se ento uma relao vampiresca: em busca de um 
parceiro que fosse sua imagem especular. Liberace convence Thorson a se anular fisicamente. O amante, como j acontecera com outros antes dele,  desfigurado por 
plsticas que pretendem transform-lo em uma cpia do pianista. Os resultados, claro, so grotescos (como tambm o  o cirurgio interpretado por um irreconhecvel 
Rob Lowe, com seu sorriso petrificado pelo excesso de intervenes). E, quando Thorson mergulha nas drogas, Liberace o troca por um namorado mais jovem. 
     Pouco antes de morrer em decorrncia da aids (que negou at o ltimo suspiro). Liberace chama o ex-amante para uma despedida. Segue-se uma sequncia delirante 
que funciona como uma metfora da capacidade dos grandes narcisistas de vender iluses  para os outros e para si prprios. Mas esse final onrico no absolve o 
personagem. Soderbergh, alis, abstm-se de julgar Liberace. Sim, sua vida foi toda impulsionada pelo amor cego pela prpria imagem. E isso fez dele uma figura to 
humana quanto perniciosa. 


7#5 VEJA RECOMENDA

DVD
TERRA PROMETIDA (PROMISED LAND, ESTADOS UNIDOS/EMIRADOS RABES, 2012. UNIVERSAL)
 O americano Gus Van Sant ora  o cineasta experimental de filmes como Elefante e Paranoid Park, ora o diretor de narrativas convencionais como Gnio Indomvel, 
Encontrando Forrester e este Terra Prometida. Matt Damon e Frances McDormand viajam comprando fazendas e stios para a extrao de gs por meio de fracking, ou fratura 
hidrulica. Com uma ingenuidade que s mesmo em Damon seria convincente, seu personagem acredita que no h nenhum mal misturado ao bem que ele pode proporcionar 
aos proprietrios com o dinheiro da venda. Uma temporada numa das comunidades rurais semifalidas que ele tenta arrematar, porm, o aproxima de pessoas que o faro 
examinar mais a fundo o que ele est oferecendo  como o velho que no cai em qualquer conversa interpretado por Hal Holbrook, a professora de Rosemarie DeWitt, 
o dono de mercearia vivido por Titus Welliver e em particular o ecoativista persistente de John Krasinski (coautor do roteiro com Damon). O filme , obviamente, 
um manifesto antifracking. Mas a competncia com que Van Sant deixa o cenrio e os atores respirar o ala alm do panfletarismo.

CINEMA
LORE (AUSTRLIA/ALEMANHA/ESCCIA, 2012. J EM CARTAZ NO RIO DE JANEIRO E, A PARTIR DA PRXIMA SEXTA-FEIRA, EM OUTRAS CAPITAIS)
 A diretora australiana Cate Shortland lana o espectador de cara, e com forca, no mundo em desmoronamento de Lore  uma adolescente cuja Alemanha est indo  runa 
nos ltimos dias da II Guerra e levando junto seus pais, uma dona de casa glida e um oficial nazista. Lore, sua me e seus quatro irmos menores se refugiaro brevemente 
numa fazenda na Floresta Negra. Logo, a me vai partir, antes que venham busc-la  fora, para se juntar ao marido; presumivelmente, ambos sero presos ou mesmo 
executados. As crianas so expulsas, e tm de iniciar uma peregrinao de centenas de quilmetros rumo  casa da av, atravessando as zonas americana e russa e 
tomando contato, ainda incrdulas, com as atrocidades dos campos de concentrao. A cinematografia  um espetculo  no sentido esttico e tambm na forma como se 
casa com a direo fechada, quase sufocante, da cineasta para criar uma narrativa impressionista em que a beleza do campo (e da tima atriz alem Saskia Rosendahl) 
 o palco de fome, desespero, violncia, imoralidade e caos. Ao final, Lore e a Alemanha que ela personifica nada mais tero em comum com o que eram no princpio.

DISCO
THE ELECTRIC LADY, JANELLE MONE (WARNER)
 D para imaginar uma reunio de Stevie Wonder e Mutantes? E um duelo musical entre o maestro italiano Ennio Morricone e o mestre do jazz Duke Ellington? Pois essas 
simbioses so possveis em The Electric Lady, segundo disco da soulwoman americana Janelle Mone. Janelle  ou melhor, seu alter ego, a andride Cindi Mayweather 
 vai do jazz ao hip-hop. E conta com participaes especiais de Prince, Erykah Badu, Solange (irm de Beyonc) e Esperanza Spalding. The Electric Lady e seu antecessor, 
The ArchAndroid, fazem parte de um projeto ambicioso chamado Metropolis, srie de lbuns temticos que tem como referncia o clssico filme homnimo de fico cientfica 
de Fritz Lang. Ao lado de Stevie Wonder, outra influncia descarada de The Electric Lady  Michael Jackson, cuja vozinha adolescente  decalcada por Janelle  ou 
Cindi, se preferir  em It's Code. Prince mostra que est alguns degraus acima dos demais colaboradores no funk Givin Em What They Love, no qual canta, toca baixo 
e faz um solo de guitarra inspirado em Jimi Hendrix. 

LIVROS
AMLGAMA, DE RUBEM FONSECA (NOVA FRONTEIRA; 160 PGINAS; 29,90 REAIS)
 Embora mineiro, Rubem Fonseca, 88 anos, transformou o ensolarado Rio de Janeiro em cenrio de policial noir. Mestre do conto e bom romancista, desvendou, pela 
fico, um certo submundo carioca, povoado por assassinos glidos, marginais violentos, advogados mercenrios e ricos devassos. Esse  o cenrio principal dos 34 
contos de Amlgama. Mas h modulaes diferentes, que o autor no ter tentado nas coletneas anteriores  por exemplo, o drama familiar suburbano de O Filho, conto 
que abre o livro e lembra, pela crueldade, Dalton Trevisan, outro grande contista e companheiro de gerao de Fonseca. H instantneos urbanos to breves quanto 
pungentes, como Noite, e reflexes sobre o ofcio de artistas e escritores (Sopa de Pedra, Escrever e o engraadssimo Best-Seller). A figura do assassino de aluguel 
e a obsesso por sade dentria, elementos presentes em vrios contos anteriores, comparecem em Deciso. E O Matador de Carretares  narrado por um personagem sinistro 
que deseja estancar a especulao imobiliria pela via do assassinato. So contos breves, mas com o impacto de um tiro certeiro.

EXPOSIO
YAYOI KUSAMA: OBSESSO INFINITA (EM CARTAZ NO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL, NO RIO DE JANEIRO)
 Na adolescncia, a japonesa Yayoi Kusama comeou a ter alucinaes. Apesar da oposio da famlia tradicional, ela encontrou na arte seu remdio para lidar com 
o desequilbrio  mais tarde, seria diagnosticada como obsessivo-compulsiva e vtima de um distrbio de personalidade que lhe d a sensao de no pertencer ao mundo 
real. A mesma sensao  compartilhada por quem v suas obras. Kusama  que, aos 84 anos, vive por vontade prpria numa instituio psiquitrica  transmite de maneira 
admirvel a vertigem de seus devaneios. Mas, ao contrrio de outros pacientes psiquitricos elevados  condio de artistas, nela a competncia vem antes de qualquer 
coisa. Dotada de um domnio tcnico notvel, Kusama  autora de pinturas e instalaes que, como se v nessa retrospectiva que passar por So Paulo e Braslia em 
2014, anteciparam tendncias como o minimalismo e o pop. O melhor da mostra so seus chamados ''quartos de espelhos", salas em que o espectador tem a iluso de mirar 
o infinito. E a obsesso da artista por padres repetitivos de bolas e pontos fez dela uma favorita da crianada. 


7#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
2. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO 
3. Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
4. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
5. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
6. Desastre Iminente. Jamie MacGuire. VERUS 
7. O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
8. Cinquenta Tons de Cinza. E.L. James. INTRNSECA 
9. A Marca de Atena. Rick Riordan. INTRNSECA 
10.   Quem  Voc, Alasca. John green. MARTINS FONTES

NO FICO
1. Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2. 1889. Laurentino Gomes. O GLOBO 
3. Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA
4. O Mnimo que Voc Precisa Saber para No Ser um Idiota. Olavo de Carvalho. RECORD 
5. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
6. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM
7. 1808. Laurentino Gomes. PLANETA 
8. 1822. Laurentino Gomes. NOVA FRONTEIRA
9. Inclassificvel. Mel Fronckowiak. RUBRA
10. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil. Leandro Narloch. LEYA BRASIL

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER
4. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE 
5. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
6. Desperte o Milionrio que H em Voc. Carlos Wizard Martins. GENTE
7. Receitas Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER 
8. Quem Me Roubou de Mim? Fbio de Melo. CANO NOVA 
9. Crianas Francesas No Fazem Manha. Pamela Druckerman. FONTANAR
10. O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA 


7#7 J.R. GUZZO  CLIENTELA IDEAL
     O Brasil, como bem sabem os estudiosos da lngua portuguesa tal como ela  falada por aqui,  o maior importador mundial de palavras argentinas. No espanholas, 
como a conhecida caramba, por exemplo  argentinas mesmo, ou, mais precisamente, portenhas, vindas diretamente das caladas mais pobres de Buenos Aires para o cais 
do Porto de Santos e a Praa Mau, no Rio de Janeiro, de onde transbordaram para o Brasil todo ao longo dos anos. Essas palavras e expresses vm do lunfardo, ou 
"lunfa", linguajar obscuro, enigmtico e com vocabulrio descolado do castelhano oficial da Real Academia Espaola; a maior parte dele pouco ou nada significa na 
Espanha, no Mxico ou no Peru. No chega a ser um idioma, mas  bem mais que uma gria: aparentemente surgiu no fim do sculo XIX como meio de comunicao entre 
presidirios, criminosos em geral, proxenetas, vigaristas, batedores de carteira, vadios e outros malvivientes do submundo de Buenos Aires. Dali se incorporou ao 
falar da rua, nos bairros pobres dos quais La Boca  o smbolo mais conhecido dos brasileiros, e logo em seguida s letras de tango  das quais, enfim, passou para 
o mundo.  
     Ou melhor: para o Brasil. O resto do mundo pode repetir palavras cantadas por Gardel, mas no as utiliza na sua linguagem corrente. Aqui, porm, entraram com 
todo o gs, e h dcadas fazem parte do dia a dia do portugus falado pelos brasileiros. A lista no acaba mais: otrio, afanar, engrupir, embromar, cambalacho, 
bacana, bronca, fajuto, punguista, fuleiro, grana, gaita, escracho, cana, tira, lbia, patota, cabreiro, pirado, campana, mina (no no sentido geolgico), barra-pesada, 
e por a se vai. Haveria, na preferncia nacional pela importao de palavras com esse tipo de significado, entre tantas outras que o lunfardo oferece, alguma atrao 
especial da alma brasileira pela linguagem da marginalidade?  coisa para os profissionais do ramo responderem, mas certas realidades no se podem negar: feitas 
todas as contas, a palavra argentina que teve mais sucesso no Brasil, do seu desembarque at o dia de hoje,  "otrio". Amamos essa palavra. Quer dizer: amamos essa 
palavra quando ela  aplicada aos outros ou, mais exatamente, quando no  aplicada a ns. Vale, ento, como uma espcie de certido negativa, que nos absolve de 
tudo aquilo que no queremos ser  bobos, enganados, passados para trs. 
     No Rio de Janeiro, especialmente,  coisa muito sria, do milionrio ao engraxate, manter durante a vida uma reputao de no otrio. Vale para o Brasil todo, 
 claro  ser chamado de otrio, em qualquer ponto do territrio nacional,  ofensa grave. Mas no Rio, por alguma razo que  melhor deixar para a apreciao dos 
mestres em psicologia social,  insulto maior ainda  assim como  um orgulho, assumido ou disfarado, considerar-se portador da imagem oposta, a do "malandro". 
Depende, naturalmente, da circunstncia e do jeito com que a palavra  usada, mas  frequente que o indivduo classificado como malandro sinta que recebeu um elogio. 
Vale como um genrico para todo tipo de avaliao positiva: ser tido como malandro  ser tido como inteligente, esperto, habilidoso, experiente, prtico, capaz de 
cuidar de si mesmo, vacinado contra a suprema humilhao de "ficar no prejuzo".  comum, no Rio, o sujeito trabalhar de sol a sol, cozinhando no meio de um calor 
de 40 graus na operao de uma britadeira de rua ou na direo de um nibus urbano, ganhando uma mixaria e sendo barrado na entrada de tudo aquilo que se considera 
"vantagens da vida". Ao mesmo tempo, sabe que  roubado todos os dias, que o governador do estado usa helicpteros oficiais, mantidos  sua custa, para transportar 
seu cachorrinho de estimao entre o Rio e Mangaratiba, e que a casa onde mora pode vir abaixo nas prximas chuvas de vero. No importa: ele vai morrer achando 
que foi um grande malandro, e que otrios so os outros. 
 uma situao de sonho para governantes, vendedores de iluses e vigaristas de todas as especialidades; tm  sua disposio, sempre, uma clientela que  tola o 
suficiente para achar que no  tola nunca. O Brasil da esperteza, onde se cultua a "malandragem'' em tudo, , na verdade, um dos pases mais crdulos do mundo. 
H poucos, do seu porte, com tantos ludibriados, ingnuos, trapaceados, compradores de mercadoria falsa vendida pela marquetagem poltica, levados na conversa por 
palavrrio de palanque, prontos a acreditar em farsantes notrios  enfim, e com o perdo da palavra, com tantos otrios. 
